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Matisse

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Maria&Matilde

sábado, 4 de julho de 2009

SANTO E SENHA

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser Uma estrela no chão.
[Miguel Torga]

domingo, 21 de junho de 2009

Sentido

Existem fases da nossa vida que são estranhas, que nos obrigam a criar novas rotinas e a quebrar com as anteriores, a colocarmos objectivos que traçamos à frente do que nos dá mais prazer, um fim de tarde na praia, a leitura de um livro, um jantar simpático, um chá com amigas, as sessões de compras ou simplesmente o tempo precioso para tratarmos de nós, dos nossos...

De repente não tenho tempo para nada...vivo cercada de livros e fotocopias, de datas para apresentar trabalhos, de defesa, de exames...à medida que os dias são sugados...e me apercebo que estamos a acabar o mês ou a começar um novo semestre

Os meus amigos sentem-se abandonados ou talvez já nem sintam, cansados de ouvir as mesmas razões que acham que são desculpas...

Faz sentido? Pois é, e ainda falta muito mais...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A minha querida tia



Há pessoas únicas...
que marcam,
que mudam as nossas vidas,
que permanecem sempre...
que são sementes...
surgirão sempre...
em pensamentos...em emoções
mascaradas de flores...
que salpicam a nossa existência
de beleza, de cor, de harmonia...
brilham como estrelas
no firmamento de vasta saudade...
Mas estão por todo o lado
ao nosso lado...
sempre
para sempre
nessa marca profunda
Feliz...e bela

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Aceita-me assim


Aceita,
que o meu silêncio
encerre todas as palavras...
e que na minha solidão
vibrem amores ausentes,
distantes... não menos presentes
nesta emoção sem razão

Aceita,
que o rosto mude de expressão
como a secura do deserto
se transforme em maré...
na certeza de que os astros estáticos
são afinal planetas em movimento
numa viagem incessante

Aceita,
que goste de ti
como a noite ama o dia...
e o sol promete a lua
num bailado sem intenção,
em que o caos afinal é ordem
da cósmica coreografia

Aceita,
que também te queira assim
sem algemas ou correntes
e nada poder agarrar,
ao cativero me negar
mesmo que seja a espiral
dum remoinho do mar

Aceita,
que te deseje
como o vulcão ao acordar
sem hora marcada
mantendo secreto o lugar
e mesmo sem agenda
poder ainda te encontrar

Aceita,
que escolha as estrelas
para confessar o que sinto
a verdade que desvendo
e a mentira que evito
que vou amar para sempre
é coisa que não te prometo

Aceita,
que te peça que me aceites assim

Get yourself a life!


Obsessão! Não fiques ai…no rasto das pegadas que não são tuas…num caminho sem saída, a assistir a uma festa para a qual não recebeste convite, não leias as mensagens que não te são destinadas, não tentes invadir um espaço que não conquistaste, nem queiras possuir os amigos com que nunca brincaste…

A ilusão de ter, de possuir, não te dá poder… e o voyeurismo é uma cortina entre ti e a vida, um mirador sobre uma paisagem deserta, um desfiladeiro vertiginoso, uma janela para um mundo que não existe, que nunca te pode trazer o que não te pertence ou devolver quem partiu...

De nada serve repetires palavras que não nasceram para a tua boca, porque o sotaque te denuncia...e essa avidez por saberes novidades de quem não te dá noticias não te mantém informada...

A curiosidade mata …espreitar pela fechadura… não é viver…e vida…há só uma e não reside atrás da porta!!! Por isso …Get yourself a life!

http://mariopinhal.blogspot.com/

Este foi mais um miminho que recebi...

Mesmassim
mesmassim cresceu
mesmassim é maior que quando nasceu
mesmassim é um espaço e é só teu
mesmassim é o lugar e o sentir
mesmassim é onde te podemos encontrar
mesmassim é para te ouvirme
smassim és tu a despertarés tua fugir
a chegar e a partir
a sofrera chorar e a sorrir
a amar
a viver
mesmassim é mesmassim

Desbloguear

Desloquei-me a Braga, em trabalho. Fui de véspera, instalei-me no Hotel e telefonei ao meu Mário:

-Bora ai, vamos jantar, apanha-me, dá-me um toque que eu desço…

Tocou. Chamei o elevador e já no hall de entrada reconheço-o de costas, na contraluz… espera-me lá fora…e foi um abraço, um único abraço onde o tempo que passou é recuperado e as distâncias transpostas…um abraço assim, sem tamanho…em que o presente se reconcilia com o passado…

-O que queres comer?

Adoro comer…mas o que quero mesmo é estar com o Mário, conversar sem rumo…e apreciar a forma sensata como sabe envelhecer lentamente, quase sem deixar sinais…é um segredo, penso…é genético, sem dúvida…mas não comento …

E faço as contas à vida…ainda há pouco éramos crianças e demorava tanto a ser adolescente e agora estamos quase com 50!!! mas também não comento, fico a pensar para onde foram tantos sonhos…para onde correram os anos...
Estamos ali, ao fim de tanto tempo com uma relação perfeita…sem mácula ou rancores, sem invejas ou posse.
Tudo o que quero é ver o Mário, ouvir e falar, e ficar em silêncio…estar neste território de liberdade e aceitação, de entrega que não pretende agarrar nada, arrancar nada, impor o que quer que seja…apenas estar…tão fácil como as brincadeiras de criança…e penso que o desejável seria que todos os amigos tivessem podido brincar enquanto meninos…talvez resida ai o segredo…porque há relações que se bastam, não têm outro fim para além de si mesmas..tal como brincar…e mantêm essa candura e simplicidade! Não há nada a provar, nem exigências a fazer…só estar…

Vamos falando e escutando enquanto prosseguimos com as nossas tarefas gastronómicas….um bacalhau à casa, que neste caso é à palácio…um tinto chambré, que o empregado se encarrega de despejar nos copos…para que nunca se esvaziem completamente…e avançamos com a conversa e com o nosso bacalhau…como se fossemos donos do tempo…

E o Mário queixou-se…tinha uma reclamação:

-Não escreves no blog…abandonaste-o…

E eu senti que era como se o meu amigo me visitasse e eu nunca estivesse em casa para lhe abrir a porta, o que era imperdoável mas mesmo assim tentei explicar…

Disse-lhe que não tenho escrito…porque estou noutra fase… E estou…

Não me apetece ficar em casa a escrever…apetece-me mais ler, apanhar sol numa esplanada deserta em pleno areal, num local que só eu conheço, e que ainda não abriu as portas, porque se reserva para a enchente de Verão, onde posso passar uma tarde sem interrupções, sem as perguntas dos empregados, sem o movimento dos clientes, sem os cumprimentos ou conversas banais dos vagamente conhecidos …

Apetece-me desencaminhar um amigo para o teatro e depois vaguear pelo Bairro Alto para petiscar fora de horas…à volta do enredo da peça ou de outro episódio qualquer…

Apetece-me estar com a minha amiga de sempre a conversar pela noite dentro e poder chorar e rir..., rir e chorar....sem que a minha sanidade mental esteja a ser avaliada...

Apetece-me estar numa esplanada à beira rio, no meio de um vaivém de pessoas e onde acabo sempre por ter encontros improváveis com amigos de longa data, que seria difícil encontrar em qualquer outro sitio e de quem já só me lembro muito de vez em quando…

Apetece-me estar com o meu grupo de amigas “encalhadas” todas tão divertidas, bonitas e completamente disponíveis e rirmos com as observações tipicamente femininas….como se o mundo fosse nosso e andássemos só a disfarçar que "...não é bem assim…"

Apetece-me ir jantar fora, em grupos, às vezes somos tantos, outras vezes nem por isso, recuperar as pessoas com quem não contactei durante anos, sem razão nenhuma para além da azafama que nos vai mantendo a todos tão ocupados e perigosamente distraídos…ate que um dia acordamos e dizemos: “O quê? Já vou fazer estes anos todos?!” refazendo as contas, como uma criança que tem a certeza de se ter enganado nos cálculos…

Mas escrever não...não me apetece…

Expliquei-lhe que comigo é um pouco assim, por fases e marés… que agora a lua, que por acaso até está cheia, lindíssima, não me tem iluminado as palavras e por isso elas não têm saído lá do escuro alçapão onde se escondem tão arrumadas…não tem acontecido ter coisas para dizer, ou comentar ou inventar… as palavras não me procuram e eu não as encontro…

Mas o Mário continuou com cara de quem insiste em tocar à campainha e permanecer ali, imóvel na esperança de ouvir passos e uma pergunta vinda do interior “quem é?” .

Sinto que o desiludo…e que os nossos blogs são também pontes de amizade e sei que sempre que posso vou espreitar os seus poemas, textos e fotografias…porque é uma forma de matar as saudades e de ter o conforto da sua presença, mesmo que apenas virtual…

E porque a seguir ao domingo vem uma semana inteira de trabalho não ficamos por ali perdidos em conversa, regressei cedo ao hotel e deitei-me logo…com a sensação de ter deixado o Mário na porta intransponível da minha casa vazia…todo este tempo…

Hoje acordei sem vontade de ir trabalhar…porque na minha cabeça pequeníssimas palavras dançavam, como se reclamassem espaço no meu blog…

Há vozes que fazem eco…e nos inspiram…

-Olha Mário, quando quiseres já podes vir… voltei a casa…Vá lá….já agora deixa um comment!!!

sábado, 3 de maio de 2008

Jacques Prevert, Pour toi mon amour

Je suis allé au marché aux oiseaux

Et j'ai acheté des oiseaux

Pour toi

Mon amour

Je suis allé au marché aux fleurs

Et j'ai acheté des fleurs

Pour toi

Mon amour

Je suis allé au marché à la ferraille

Et j'ai acheté des chaînes

De lourdes chaînes

Pour toi

Mon amour

Et je suis allé au marché aux esclaves

Et je t'ai cherchée

Mais je ne t'ai pas trouvée

Mon amour

Jacques Prevert, Sables mouvants

Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Et toi
Comme une algue doucement caressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Mais dans tes yeux entrouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Snow Patrol - Chasing Cars (US Version)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Hâfiz

basta-me um sorriso teu
e dou-te a vida em troca

Rûdakî

Breve ou longa, que me importa a vida!
Não temos de morrer um dia?

Por muito que se puxe e estenda o fio
não chegará um dia ao seu limite?

quer vivas infeliz e na miséria
ou mesmo seguro e afortunado,

tudo se equivale no dia de morrermos.
Quer a sorte nada tenha te oferecido

quer, deste mundo, mil terras te haja dado,
tanto faz no dia em que morrermos.

Fortuna e infortúnio: apenas sonho!
e o sonho só vale como sonho,

não há diferença no dia de morrermos.

Omar Kayyâm

Sabes lá o que o futuro te vai dar.
Sê, por isso, hoje feliz até mais não!
Pega no copo, bebe e senta-te ao luar.,
amanhã, talvez a lua te procure em vão.

Sa'adi

Somos filhos da humana condição.
essa é a base da própria criação:
Um sofre todos sofrem dano.
se és indiferente como é que és humano?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

splendor in the grass,


What thought the radiance wich was once bright
Be now for ever taken from my sight
thought nothing can bring back the hour of splendor in the grass,
of glory in the flower,
we will grieve not, rather find strenght
in what remain behind.
William Wordworth

domingo, 13 de janeiro de 2008

Sand and stone


"Two friends were walking through the desert. During some point of the journey they had an argument and one friend slapped the other one in the face.

The on who got slapped was hurt, but without saying anything, wrot in the sand:" Today my best friend slapped me in the face."

They kept on walking until they found an oasis where they decied to take a bath. The one had been slapped got stuck in the mire! And started drowning, but the friend saved him.

After he recovered from the near drowning, he wrote on a stone: "Today my best friend saved my life. The friend who had slapped and saved his best fried asked him "After I hurt you, you wrote inthe sand and now, you write on a stone, why?"

The friend replied "When someone hurts us we should write it down in sand, where winds of forgivenes can erase it away. But, when someone does something good for us, we must engrave it in stone where no wind can ever erase it."

Learn how to carve you hurts in the dand and your benefits in stone. They say it takes a minute to find a special person, an hour to appreciate them, a day to love them, bu then, an entire life to forget them.

Take the time to live! Do not value the things you have in your life, but value who you have in your life!"

sábado, 12 de janeiro de 2008

That's it

"It takes only a minute to get a crush on someone,
an hour to like someone, and a day to love someone,
but it takes a lifetime to forget someone".

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Prenda de Natal

Recebi um email em que o assunto era "Prenda de Natal"...claro que vindo de quem vinha...seria sempre uma prenda, o "Natal" tinha apenas a ver com a época festiva...

Fiquei curiosa mas no corpo da mensagem havia uma exigência que me obrigava a refrear o impulso de abrir o attachment...

É que tinha que fazer o download e antes de visionar era-me solicitado que fizesse uma chamada via Skipe para o Mário http://mariopinhal.blogspot.com/ porque ele exigia "presenciar" ao "abrir da prenda"...

Pareceu-me justo e estas condições de quem oferece têm que ser respeitadas por quem recebe os mimos ...

E assim fiz...a prenda era um vídeo fantástico da minha infância em Moçambique, um vídeo também desta amizade de sempre que já descrevi em É mesmassim - o meu blogue e eu

Evidentemente que o Mário presenciou o espanto e a comoção partilhada lá em casa, porque todos quiseram ver o video dos meus primeiros anos de vida, em terra africana, no meio de cachos de banana, obstinada em ir para o lago...

Obrigada príncipe!


video

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Sade - Your Love Is King

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A capuccino, please

Gosto de passear pela cidade...fazer algumas compras e procurar livros...
Faz frio e escurece tão cedo!
No fim das minhas compras, por volta das 17h as lojas começam a fechar, refugio-me no Nero ...é onde servem a bebida mais próxima do nosso café...Há uma fila na caixa, vou olhando para a vitrine e escolho um browny...sei que tem muita gordura e açucar em demasia mas apetece-me não resistir...

Chega a minha vez...A capuccino, please... and a browny,e aponto não vá ele servir-me outra coisa.
Lá dentro está quente, gosto de sentir o conforto dos sofás, o cheiro familiar da arábica e posso observar as pessoas apressadas a passarem do outro lado do vidro...sabe bem estar sentada enquanto o mundo continua a girar...
Servem-me um copo enorme cheio de espuma pulvilhada de chocolate. Agarro a bebida e fico a aquecer as mãos...
Faço umas anotações...abro o livro na página de ontem, mas não me apetece concentrar-me em nada...espreito as pessoas das mesas do lado, os vultos que se movem lá fora...
Espero que o capuccino arrefeça, levanto-me para ir buscar uns jornais, folheio-o, percorro agumas notícias e fico ali até ter coragem de ir novamente para o frio...

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Frozen heart


Merry Christmas to all


Mickey & Minie


X-Mas

Já abrimos as prendas...ja trocámos beijos e agradecimentos, vimos a alegria das criança, arrumámos os papeis amarrotados e as caixas vazias, celebrámos com champagne e agora vamos dormir...para o ano há mais...
Adeus Pai Natal

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Boas Festas




domingo, 23 de dezembro de 2007

O Natal não é todos os dias

Lorenzo Monaco,1422

Gosto de datas, de festas, de celebrações e ocasiões especiais...e apesar de sabermos que temos 365 dias para festejar o que quer que seja, a verdade é que não o fazemos...e por isso é bom que as datas assinalem o que temos tendência para não lembrar...e nos convidem a celebrar o que fôr...

Pelo menos, uma vez por ano temos o Dia da Mulher, O Dia da Mãe, o Dia do Pai, O Dia da Criança, O Dia dos Avós, O Dia da Arvore, temos dias para tudo e também temos o Natal, que é uma festa que é celebrada em todo o mundo, na maior parte dos casos a 25 de Dezembro...

É claro que o Natal, independentemente de comemorar o nascimento do menino Jesus em Belém, faz bem à economia e encoraja-nos ao turbo consumo, a utilizar os cartões de crédito, a fazermos intermináveis listas de compras...a sermos generosos connosco e com os outros e a desculparmos todos os excessos...depois logo se verá...temos os outros dias todos do ano para remediar os estragos...
Para além de enchermos a árvore de embrulhos coloridos com conteúdos sem grande utilidade, colocamos à mesa a gastronomia mais refinada, em quantidades que superam largamente o que podemos ingerir...pelo menos esquecemos a crise, as dietas, as restrições dos outros 364 dias, o que só por si, já é motivo de festejo...
Mas é essencialmente a festa da familia e dos amigos, em que somos convidados a mimarmo-nos uns aos outros, a lembrarmo-nos de nós e dos demais, a trocar prendas e afectos...e isso é bom sim...nem que seja mesmo uma vez no ano...
Eu gosto particularmente desta data porque cada familia cria as suas próprias tradições e celebra à sua maneira... a minha também tem as suas...e a mais importante é a que estamos juntos....porque não é Natal todos os dias...

sábado, 22 de dezembro de 2007

Fronteiras


Cruzaram-se no espaço virtual num Fórum sobre Direitos Humanos...tropeçaram nos respectivos nicks como se estes constituíssem uma palavra-passe, um código reservado aos dois, um chamariz imperceptível para os outros ...

Daí a pouco estariam a trocar endereços de e-mail e MSN...mais tarde não saberiam reconstituir a sequência dos acontecimentos nem como tudo se tinha precipitado, quem tinha tomado a iniciativa nem tão pouco quais teriam sido as palavras mágicas inciais...tudo lhes pareceu que se tinha desenrolado de uma forma natural...

Era uma sensação bizarra para ambos, que inexplicavelmente desafiavam as probabilidades estatísticas e o destino que os tinha colocado em continentes diferentes...unidos em geografias tão distantes...

Teclavam de forma compulsiva, tecendo uma enorme rede de cumplicidades e segredos nos seus longos encontros on-line, não obstante os fusos horários, permaneciam horas a fio, esquecendo o tempo real, o sono, o lazer e às vezes o trabalho... e demoravam eternidades para se despedirem como se faltasse sempre mais uma palavra, um pensamento, um último adeus... que esperavam que fosse afinal um até breve...

Criaram diminutivos e enereços de MSN exclusivos para eles...trocaram fotos para encurtar as distâncias, viajaram pelas respectivas vidas, como não o fariam se tivessem sido apresentados por um amigo comum...
Falavam de tudo e de nada, dos filhos já independentes, das carreiras e dos amores magoados, das agendas sobrecarregadas e do corre-corre sem fim, dos prazeres que partilhavam separadamente, e de tudo o resto...leitura, música, pintura e projectavam viagens que ambos gostariam de fazer...quem sabe em conjunto?

Inventavam possiveis encontros e um futuro à espera...Para trás iam ficando as questões humanitárias, preocupações partilhadas mas rapidamente esquecidas ...

E um dia souberam que iriam coincidir por umas horas em Paris, ambos em viagem profissional...mesmo que os voos, ela a chegar e ele de regresso, não permitissem mais que um breve encontro no aéroporto, a ambos pareceu a ocasião fantástica e a cidade a mais indicada...

E quando o momento chegou tudo aconteceu da mesma forma natural, ambos se reconheceram entre a multidão, abraçaram longamente, como fariam velhos amigos, de imediato começaram a falar com a mesma familiaridade com que costumavam teclar…e as horas de que dispunham passaram, parecendo breves instantes, entre a chegada e a partida …

Desde então, quando se encontram on-line, sentem uma certa estranheza…uma vez transposta a perigosa fronteira do mundo virtual…o peso das respectivas vidas materilizou-se e passou a ser mais dificil sonhar...
Mas passados tantos anos desde o encontro em Paris, ainda sentem que mais ninguém os conhece tão intimamente e por isso regressam sempre ao MSN ...

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Paisagem transmontana



O céu está limpo, num azul que se estende sem imperfeições, o sol branco impera, intenso, espalhando uma luz fria...

O dia despertou coberto com um manto de geada… a berma, os campos, a terra, as arvores estão envolvidos numa finíssima camada de gelo… Ao longe um olival parece um rebanho de ovelhas por tosquiar, imóveis, certinhas, alinhadas, disciplinadas… e sorrio, é como se a natureza tivesse o seu lado infantil de criança, e acordado com vontade de refazer a pintura do dia anterior, passando um lápis de cera branco sobre toda a superfície da folha…farto dos próprios traços altera a paisagem, joga com a percepção, experimenta novas sensações, recria e diverte-se …

Ligo a chauffagem, aumento o som do rádio e as noticias confirmam uma onda de frio…”Portugal treme”, estamos em Dezembro! A temperatura é negativa…talvez seja um privilégio ainda termos Inverno, Inverno com frio, geada e até nevões…Imagino toda esta paisagem submersa em neve…sempre com um sol vigilante, generoso em luz sobre um sonho branco, limpo, sem mácula…

Conduzo por cima de um massa espessa de nevoeiro, que parece querer desprender-se do solo…e que me cria a estanha ilusão de estar a sobrevoar as nuvens…tenho vontade de acelerar…

Observo tudo com encanto. Os montes ao longe ameaçam ser o limite do mundo… de repente a paisagem começa a acinzentar-se e com surpresa, após uma curva sou engolida por uma nuvem de nevoeiro, espessa, como um véu que retém a luz, a estrada funde-se com o branco que invade tudo, ligo faróis de nevoeiro, desacelero a velocidade… distingo apenas os faróis na direcção contrária…

A paisagem perde os contornos, os montes tornam-se irreais e eu continuo a conduzir, tentando adivinhar o caminho que ainda ontem estava ali…

Viagem a trás-os-montes I


Não vou alongar-me com a generosidade destas gentes, que se ofendem se as visitas não aceitam as honras e recusam o petisco que é colocado prontamente na mesa, sobre as toalhas de linho grosseiro…Nem me quero perder em detalhes com a gastronomia única, as sopas de sarrabulho e toda a espécie de enchidos…

Mesmo quando venho em trabalho consigo sempre organizar encontros com amigos tão antigos, primos e parentes mais afastados, jantares e caminhadas a pé, saídas e longas conversas…tudo bem gerido para não melindrar ninguém e poder corrê-los a todos…um petisco aqui, um copo ali…sem exagerar muito porque ainda tenho que passar acolá…

O meu horário permite-me uma imensa liberdade…passear durante o dia e trabalhar em pós laboral…não é sempre assim, mas é um privilégio que me vou concedendo nas épocas em que ando mais condescendente comigo mesma e me repito para aliviar a culpa “Eu mereço” e é claro que mereço muito!

Mas esta viagem tem outras implicações, outros objectivos…é umas reunião de pessoas que eram uma família e passaram a ser herdeiros. Estamos todos aqui para dividir o que ainda não foi vandalisado de uma casa que teve dias felizes mas que agora tem os dias contados…vimos aqui vasculhar os cantos para resgatar memórias alegres, como se os objectos nos trouxessem de volta as horas, os dias e os anos que se consumiram tão silenciosamente…na esperança de encontrar atrás de uma porta os risos perdidos e as gargalhadas soltas…

Levaremos objectos para casa, sem saber porque não temos coragem para os abandonar ali…onde sempre pertenceram…onde talvez devessem para sempre permanecer…para aliviar a culpa em assistirmos calados à demolição da casa que foi o símbolo de uma família…

Viagem a trás-os-montes II



Na minha infância, o estado das nossas estradas, estreitas, sinuosas, esburacadas, sem bermas, fazia do pais, um pais enorme…maior ainda se tivéssemos o azar de seguir atrás de um camião que não facilitasse uma ultrapassagem…gigantesco ao olhar de crianças que contavam os minutos, ansiosas por chegar a um destino…

-Ainda falta muito para chegar?- repetíamos incessantemente…

Lembro-me das horas intermináveis, curva contra –curva, numa viagem medonha, via o serpenteado da serra do Marão, onde muitos perigos espreitavam na nossa imaginação fértil de criança…malfeitores escondidos, o gelo, as escarpas, as ultrapassagens, uma avaria, o cair da noite, reflectindo o receio dos adultos e recriando o suspense de uma cena de um filme passado na TV, a preto e branco, na altura…

Era assim, numa constante impaciência, até que o embalar das curvas e o cansaço da viagem, nos fizesse adormecer…para só acordarmos estremunhados com a excitação da chegada, a vista da casa toda iluminada, o alarido dos beijos e o aperto dos abraços dos avós, e despertar com os olhos esbugalhados com as prendas embrulhadas e toda as surpresas preparadas com minúcia, por quem muito anseia a chegada dos netos e lhes sabe adivinhar os desejos mais secretos…

E depois entravamos num mundo de sensações em que tudo é perfeito… o cheiro da comida preferida, as guloseimas e os mimos todos, o som do crepitar da lenha na lareira, o mistério das brasas incandescentes e o fascínio das chamas…

Permanecíamos a pé até cairmos exaustos de sono entre os lençóis frescos de linho, sob o calor pesado dos cobertores de papa enquanto a avó nos ajudava a proferir a oração da noite
“Menino Jesus,
dá-me a tua mão,
que sou pequenina
e caio ao chão”

Recebíamos um beijo na testa …“Dorme bem, amor”…e a luz apagava-se…

Por isso quando aqui venho reencontro sempre a minha infância e o mundo mágico que só os avós e os netos conhecem…

Estórias reais de plebeus I

Vou chamar-lhe Maria…

A Maria era “criada de servir”, como na altura se designava, em casa dos meus avós maternos numa vila transmontana, que agora é cidade…

Servir de criada, era um destino frequente para as raparigas de famílias pobres, incapazes de prover o sustento dos filhos, quanto mais, mandá-los para a escola…e ainda por cima sendo uma rapariga !!!

Não sei se a Maria chegou a frequentar a escola, provavelmente não, nunca lhe perguntei por um certo pudor e por receio de reabrir o que pode ser uma ferida antiga… sei que é analfabeta…mas sabe fazer contas e até tem orgulho no calculo mental, ninguém a engana nos trocos… nem as moças com estudos que estão nas caixas registadoras do supermercado onde se abastece…

A mãe também servira em casa dos meus avós e foi lá que se dirigiu para confiar a filha porque era grande a prole e difíceis os tempos…

Chegou franzina, com um estômago pequenino, ainda meia criança, descalça e com a roupa remendada…lembra-se de lhe terem arranjado logo uma farda e avental, limpos, passados, mas o verdadeiro luxo foram os primeiros sapatos, que nunca há-de esquecer…no início não se acomodavam os pés, aleijavam-lhe os dedos…depois lá se foram habituando…

Ficou inicialmente sem ordenado, para aprender, o pouco trabalho e vontade em troca do seu sustento e depois, logo se veria, conforme a rapariga se “ajeitasse” assim ajustariam. E lá ficou em regime de internato, mesa, cama e roupa lavada, a partilhar o quarto da torre com as outras criadas… aos cuidados da minha avó materna.

A verdade é que a Maria se ajeitou, e por lá se acabou de criar, fez-se uma boa criada e em pouco tempo teve direito a ordenado “pôs” corpo e tornou-se também mulher…

Estórias reais de plebeus II

A Maria veio parar a nossa casa em Coimbra por altura do nascimento da minha irmã, a minha mãe lá desabafou a sobrecarga de trabalho e a minha avó, prontificou-se a mandar reforços…veio a Maria em socorro…

Eu teria então uns 3 ou 4 anos e acho que ela ainda me vê com os mesmos olhos quando me trata “por menina” …alheia ao facto de eu já não usar transas…

Imagino a aventura para uma jovem que nunca tinha saído da terra…viajar da vila transmontana para a “cidade dos doutores” , os medos da viagem interminável e os receios do desconhecido que a esperava na cidade…

E a Maria ficou um tempo a servir-nos…e afeiçoou-se a nós e regressou à terra para casar e fomos tendo noticias à medida que os filhos foram nascendo e crescendo…e sempre que lá íamos de férias, lá vinha ela, a pé da aldeia para mostrar com orgulho a sua descendência e matar saudades dos outros meninos que servira tão longe e que deixara ainda tão pequeninos…

Aparentemente tudo corria bem, a minha mãe manteve sempre um carinho muito especial e alegrava-se com as notícias que lhe davam conta que a Maria estava a construir casa, que os filhos estavam na escola, que o marido era um electricista com trabalho e que a família prosperava….

Estórias reais de plebeus III

Não sei sequer se se chama Maria, porque ela é conhecida e sempre a tratei por outro nome…

Baptizá-la nesta idade pode parecer excesso de discrição porque a estória dela não é segredo para ninguém que a conhece…nos meios pequenos não existem segredos…estes são uma conquista das sociedades anónimas, em que nos tornámos…nas aldeias, mesmo que não se queira, é tudo partilhado, aberta ou veladamente, mas sempre comungado..

A Maria sempre se comportou como se de um segredo só seu se tratasse, nunca tendo comentado o assunto, feito uma queixa, deixado cair uma inconfidência muito menos que se abeirassem dela com perguntas ou insinuações e manteve-se alheia aos rumores…mas isso não impediu que se soubesse e que toda a gente comentasse, um novelo de pormenores à volta do seu drama…

De repente constou que o marido abusava sexualmente da filha mais velha, que a Maria descobriu o incesto e que no meio da sua dor inconsolável tentou repetidas vezes suicidar-se…por isso esteve internada por diversas ocasiões, recusava-se a viver, não tinha vontade para nada…

No meio de seu desatino não pode impedir o marido de fazer dividas que os levariam a perder a casa e todos os bens que tinham amealhado…e por isso, para além da família destroçada, sucedeu-se a ruína completa e o ver-se de um dia para outro com os filhos ainda por criar e sem um tecto…

O marido abandona-a, vai para França…ela nunca mais o voltará a ver, leva a filha mais velha com ele, por isso acaba por perder os dois…

A sua boca fechou-se, nunca mais falaria do marido…nunca comentaria o sucedido, carregou-se de negro…

Estórias reais de plebeus IV

A aldeia viveu estes acontecimentos em grande agitação, mas quando a Maria passava no seu imenso luto de silêncio, todos se calavam, ninguém conseguiu tirar-lhe um queixume, ninguém teve coragem para lhe falar do assunto..

O marido foi condenado pela aldeia inteira, nas conversas de boca a boca, à saída da missa…nos intervalos da lavoura, onde fosse...

”Nunca se viu uma coisa assim!”
“Onde é que este mundo irá parar?”
“O que ele precisava era de umas boas chibatadas”

Não havia memória de um tamanho escândalo, muito menos num local onde normalmente não se passa nada, nem se espera que venha a acontecer… de repente havia motivo de conversa e indignação.

A Maria ficou com os filhos mais novos…a solidariedade e a esmola de alguns permitiram que a família desfeita fosse abrigada num barraco sem condições, a ajuda dos vizinhos chegou na assistência às crianças providenciando alimentação durante os períodos de incapacidade, convalescença e internamento da mãe…

Aos poucos a Maria foi recuperando, era seguida nas consultas de psiquiatria, tomava os medicamentos prescritos pela doutora e foi gradualmente arranjado horas como mulher a dias em casa de umas senhoras…

Passou a dedicar todo o seu tempo e energia ao trabalho e aos filhos mais novos…melhorou as condições do seu casebre e continuou a mandá-los para a escola para aprender …tudo na maior pobreza…

O marido não voltaria à aldeia, ficou-se por terras francesas, onde lhe eram conhecidas mulheres e uma vida de gastos e excessos…chegavam os ecos aos seus ouvidos mas a Maria não comentava as noticias…

Estórias reais de plebeus V

Muitos anos passaram…criou os filhos pequenos sem proferir uma palavra de revolta contra o pai..estes cresceram no silêncio. O mais velho conseguiu arranjar trabalho em Lisboa e acabou por chamar o irmão, na grande cidade existem mais oportunidades. A Maria passou a vê-los de quando em onde, mas não se sentiu abandonada porque eles ligam com frequência e o que ela quer é que ele façam a vida como for melhor para eles…

E depois vieram os netos, que à força de os ter tão pouco tempo, beija as fotografias que chegam em envelopes carimbados com nomes dos arredores de Lisboa…

No Verão passado, a Maria teve conhecimento que o marido tinha morrido, a mulher com quem vivia tinha-o abandonado durante a doença prolongada e ninguém reclamava o corpo e por isso ela responsabilizou-se pelas despesas, tendo gasto todas as economias para mandar vir o corpo de França para lhe fazer o funeral…

Fez-se o enterro no cemitério da aldeia com missa, não havia ninguém a chorar, excepto a Maria, que se contorcia em dores, convulsionava em soluços, e se desfazia em imensos gritos de dor quando "o corpo baixou à terra"…foi a comoção geral…a aldeia ainda estava cheia de rancor, não tinha esquecido as ofensas… foi a estupefacção dos presentes...que ainda hoje comentam o espanto...

Depois do enterro voltou para casa em silêncio…e no dia seguinte retirou o luto em que estava encerrada há mais de duas décadas...

Quando a vi, dei-lhe o pêsames e ela abraçou-me, agarrou-se muito e conseguiu dizer entre soluços “Sabe menina, era o meu homem, e mal por mal, prefiro tê-lo agora perto de mim…”

As flores da campa do seu homem nunca secam, visita-o regularmente, enfeita-lhe a laje de mármore e conta-lhe as novidades dos filhos, das senhoras, as notícias que dão na TV…
A morte saldou as contas entre ambos e trouxe-lhe o marido de volta….

Estórias reais de plebeus VI

Claro que não vou falar no assunto e sei que ela não votará a mencioná-lo mas imagino que agora tenha uma vida mais leve…entre o trabalho nas senhoras e a paragem diária que faz na campa do marido para sentir a companhia que lhe faltou tanto tempo…

A morte e o perdão espontâneo abrem também perspectivas para o reencontro com a filha exilada em França…anos a fio de separação e dor…

Ainda não me encontrei com ela desde que aqui estou, mas está presente nos pormenores de como preparou a casa para a minha chegada...

O meu quarto estava quente e a cama feita com todo o cuidado… Quando me enfiei debaixo dos vários edredons senti o calor do mimo que só se desfruta verdadeiramente na infância e comecei a escrever à espera do meu encontro com o sono, que teima em demorar..

Marias


Quase todas davam pelo nome de Maria, não sei como se distinguiam entre si...
Ficavam todas alojadas no "quarto da torre" local privilegiado para a observação dos incêndios que tanto ameaçavam os serões de verão...ou para espreitar, com rezas a Santa Bárbara, os relâmpagos das trovoadas... eram as duas ocasiões em que nos era permitido subir ao quarto da torre...
Para mim, era a divisão que maior fascinio exercia...imperava na casa rematado pelo cata vento, que eu gostava de observar...

Conheci várias criadas em casa os mês avós…Para mim foi sempre um enigma como é que as pessoas podiam esgotar a vida a trabalhar para uma família e ainda sentirem reconhecimento, dedicação e verdadeiro amor…

Sentiam-se agradecidas pelo facto de os meus avós lhes terem “matado a fome”, porque nunca poderiam esquecer aquilo que, quem nunca passou por lá, também não pode lembrar, é que a fome mata…

Recordo essas passagens e compreendo como aquela casa funcionava como um centro de acolhimento, onde as raparigas vinham, pela mão das mães, e eram entregues à vigilância e cuidados da minha avó para que ela as acabasse de criar.

Mas era também um centro de formação, onde as raparigas aprendiam a cozinhar, limpar, cozer, lavar, passar a ferro, jardinar, etc. e assim poderem ter um futuro… fazerem-se umas donas de casa...

Outras vezes, servia como um centro matrimonial porque normalmente, o novo regime alimentar permitia-lhes ganhar formas de mulher, serem notadas pelos rapazes da vila e quem sabe, casarem-se na primeira oportunidade…Os meu avós apadrinhavam o enlace e faziam o casamento…

Se não tivessem essa sorte, por ali ficariam, a menos que a minha avó as cedesse, por especial favor, para alguma casa de confiança das suas amizades…uma espécie de centro de emprego…
Foi assim que conheci várias Marias que testemunharam o seu reconhecimento e gratidão...em troca deram anos do seu trabalho e dedicação à família...era assim...

Origens




Tenho origens transmontanas e por isso aprecio muito esta paisagem agreste, rude e simples que Torga tão bem descreve…um céu infinito e o recorte de montes, para além dos montes….como uma imensidão sufocada, delimitada por fronteiras volumétricas.


Conduzo com prazer, está um dia de sol, um céu intocável, uma luz de Inverno especialmente branca… Abro a janela para inspirar o ar, sinto o frio nas narinas, inspiro fundo o ar puríssimo, e sei que conheço este cheiro desde sempre…


Observo o céu, adivinho o entardecer fantástico, em que o sol se incendeia nos montes que se sucedem uns aos outros e antevejo à noite um fundo tão negro que faz sobressair ainda mais o brilho das estrelas…


Recordo noites tão antigas de verão no terraço dos avós maternos, em que as estórias se misturavam com afectos e revivo todo o encantamento que resta da infância, nas memórias que perduram de pirilampos e estrelas cadentes…

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Queria que isso fosse assim para sempre…

Sabemos tantas coisas, mas não as lembramos suficientemente. Sabemos o quanto tudo é efémero…mas esforçamo-nos por esquecer…como se quiséssemos à força desaprender a lição…

Poisamos o olhar sobre as coisas e preferimos sentir que elas permanecerão estáticas, tal qual as percepcionamos, assim para sempre…

E quando encontramos regularmente as pessoas em determinados sítios habituamo-nos a imaginá-las “localmente” bastando regressar a um lugar para as encontrarmos, como se estivessem lá para sempre…

Soube que morreu o Fernando do Café Avenida…

É estranho estar a escrever sobre isso porque não era íntima amiga dele nem sou frequentadora do café (nem deste, nem de qualquer outro)…É um café na avenida onde resido e o Fernando trabalhava lá há certamente várias décadas…recordo-me dele há tanto tempo, sempre a atender, com um humor e trato especiais…e cruzávamo-nos regularmente…e queria que isso fosse assim para sempre…

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

MASSIEL-20 ANIVERSARIO: PALABRAS

Vinte anos ou menos

Os enfeites da rua lembraram-lhe que se aproximava mais um Natal...
Estacionou o carro à frente do portão da casa...estava sem paciência para o meter na garagem, ficaria ali mesmo...
Sem olhar para o relógio, pelo movimento da rua, podia perceber que se tinha atrasado...novamente...era cada vez mais frequente...

Sentia-se cansado, e tinha planeado enviar uns emails antes de jantar, mas receava que a cozinha do restaurante ao lado fechasse e depois teria que suportar, uma vez mais, o sorriso da dona a dizer "por especial favor, para o sôtore, posso arranjar umas bifanas".

Estava farto das bifanas por favor, do sorriso por favor...não iria enviar os emails, fá-lo-ia depois.

Entrou em casa, apenas para se livrar da gravata e do casaco do fato...afinal, merecia, ao fim de mais de 14 horas de trabalho...Era este o ritmo dos últimos anos...ao menos livrar-se da gravata...e trocar o casaco pelo conforto de uma camisola de lã...

A mulher parecia não ter dado conta do seu atraso nem da sua chegada...Não o esperava, nunca o esperava e por isso era indiferente a hora a que regressava, se regressava...Cumprimentaram-se à pressa, ela porque estava a ouvir o tal programa na Tv ele para evitar a "bifana a saber a sorriso-por-favor"...~
A mulher estava preparada para se deitar, à espera que acabasse o programa na televisão...Comentou que tinha que levantar-se cedo e ele recordou-se que ela viajava de madrugada, certamente para um congresso ou uma reunião, já nem se lembrava, tinha esquecido os pormenores...era qualquer coisa que lhe dissera há talvez um mês..
Havia sempre tanta coisa a pairar na sua cabeça..fingiu lembrar-se, na esperança de a agradar levemente ou talvez para não ouvir que era insensível e indiferente...magoava-o com estas palavras duras, porque ele não era uma coisa nem outra...
Quando chegasse do jantar já ela estaria a dormir...era assim há algum tempo, habituaram-se gradualmente a dormir 1º em camas separadas, depois em quartos distintos, até que passaram a fazer as refeições sós e agora até as férias independentes...
Tudo com palavras contadas, para não se agredirem, para não recomeçarem a relembrar todos os ressentimentos...as culpas recíprocas...umas trazem as outras...por isso quanto menos melhor...

Sim, doi-lhe levemente...mas não pensava nisso, ao fim de tantas relações amorosas, logo esta que começara como uma paixão arrebatadora, uma urgência de sentimentos e sentidos, uma atracção a que nenhum conseguiu resistir e dois casamentos dissolvidos por tão pouco...com filhos no meio da confusão...Juraram a si mesmos que era desta, amor para sempre, mas já se sabe que o sempre é apenas enquanto dura...

Para quê? Apenas 20 anos depois, nem isso..Não tinha energia para mudar. Ficará assim, ficarão ambos assim, nesta infelicidade partilhada, neste abandono consentido que se foi surdamente instalando...
De vez em quando uma paixão vem estremecer tudo...relembrando vertigens antigas e tentando-o a recomeçar de novo, a partir noutra direcção, rumo a um destino longinquo, a viver a ilusão do salto que se calhar acabará por não dar, atados um ao outro, não pelo desejo, não pelo afecto, mas por estranhos e cegos laços que eles próprios não conhecem ...alguma coisa será...
Seria possível alterar o curso da vida? Seria inevitável que a distância e o silêncio se tivessem apoderado deles? Teria que ter sido assim? Seria este o fim de todas as relações? Até que momento teria sido possível reverter este percurso de solidão partilhada?
Podia desculpar-se com o trabalho, com a crescente pressão que as várias promoções acarretaram, com a rotina cega que mata, aniquila, anula...e ele também tinha queixas, dores, incompreensões, é claro que era assim para os dois, a vida é dificil em ambos os sentidos...
Também ele remoia as sua próprias culpas...lembrava-se de ter abdicado de tudo pelo trabalho, para subir na carreira, para merecer o reconhecimento, pelo sentido de dever e talvez pela ambição, também...e abdicou dela, sim...esqueceu todas as datas, os aniversários, não estava nos dias das comemorações, deixou arrefecer todos os jantares e consumir as velas...mas não julgara nunca que chegariam a isto...a este deserto em que as emoções secaram e onde nunca chove...
Mas mudar para quê? Que faria a todos os seus livros, Cds, quadros? Que trabalheira!
Viveriam assim certamente, muito tempo, quem sabe para sempre? Ele a dormir no seu escritório, forrado a livros, ela no quarto do casal que já tinham sido, replecto de fotografias de uma paixão extinta...numa dura convivência pacifica em que ambos garantiam a distância apropriada para evitar confusões e conflitos, acima de tudo o importante era não darem espaço a estados de espírito negativos...indesejáveis para ambos...esgotantes e desnecessários...
Lembrou-se de uma música antiga, afinal os artistas não inventam nada, só cantam o que já existe, o que sempre existiu..."que fria está esta casa..." recordou...ainda não tinham passado vinte anos e aproximava-se mais um Natal...mais um Natal, sem intimidade...
Consultou o relógio...estava a demorar-se tempo demais...iria ter que engolir a bifana do sorriso... por favor, sôtor...e não sentiu fome mas tristeza ...

Veja meu Slide Show!

Humanos e outros animais

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Domingo de manhã

Sentia-se sempre ridícula, nestes domingos de manhã...tomavam o pequeno almoço tardio, mal dormidos, vestida ainda com muitos brilhos para aquela hora do dia, na roupa de sábado à noite, talvez com marcas de maquilhagem mal removida...olhava à sua volta e era evidente que não era ela apenas a estar naquela situação, na mesa mesmo ao lado, uma mulher madura estava ridícula, vestida e pintada "de véspera"...
Mexia o capuccino, estava absorta, mergulhada na espuma branca pulvilhada com chocolate e canela, quando ele interrompeu, como fazia tantas vezes...
-Um beijo pelos teus pensamentos...
Surpreendia-a sempre quando ela divagava, mas como poderia explicar-lhe as dúvidas, os receios, os pensamentos tão pequeninos...talvez sem qualquer fundamento...mesmo as amigas se impacientavam"vá, deixa fluir, não compliques..." Era a sua natureza essa, a de ficar assim a pensar em nada...e foi o que lhe respondeu...
-Em nada de especial-e ofereceu-lhe os lábios de forma mecânica...permanecendo ainda mais misteriosa e encerrada em si própria.
Ele apreciava nela tudo aquilo que possuira há tanto tempo...a pele tão lisa e fresca, o olhar enorme de espanto, o corpo ágil, ossudo e definido, que no conjunto lhe conferiam um ar de fragilidade adolescente, apesar de já estar nos trintas e...
Ela não sabia porque estava ali...repetia sempre para si mesma que aquela seria a última vez, vezes sem conta, e por isso vinha, nunca faltava a estes encontros impossíveis, sempre pelo mesmo motivo, despedir-se...
Não entendia o estranho magnetismo que ele exercia...e que a fazia correr riscos, inventar desculpas, alterar a agenda, arranjar viagens profissionais que nunca existiam...em suma mentir e trair...Sabia que não poderia manter a situção por muito tempo, nem queria...por isso, estava aqui apenas para se despedir definitivamente...mais uma vez...seria desta sim...
E desejava pôr um fim a esta relação, temia ser descoberta, desmascarada, desmentida...morria de medo.
Não sabia das razões para estar ali, para justificar que se encontrava com ele, uma vez por mês, para explicar as falsidades em que andava...não havia motivos...
E olhava para ele, já tão cansado, sorria...ele olhava-a sempre, talvez estivesse ali o segredo...talvez gostasse da forma como ele a olhava...talvez não fosse pelo desejo mas pelo afecto...pelo desejo daquele afecto...

"Tu encanto se herá irresistible"

A minha companheira de vôo era madrilena e depois de trocarmos algumas palavras ibericas, gentilmente, ofereceu-me a revista que trazia para a viagem e cuja leitura tinha já concluído...chama-se Yo Dona é do grupo editorial El Mundo e traz na capa a fabulosa Inès Sastre.

Há muito que não lia um horoscopo e não resisti, reza assim:

Virgo

En el plano laboral, tendrás la mente despejada para hacer frente a una serie de problemas que deberás solucionar. Si consigues poner una nota de optimismo e alegria, tudo será mucho más llevadero.

En el sentimental, viverás momentos intensos e idilicos. Concédete esos placeres que te apasionan y disfrutas como nadie: cenas suculentas, paseos al entardecer, salidas nocturnas...

E remata a bold "Tu encanto se herá irresistible"

Eh lá!!!

Obrigada Kikinho pela mulher na arte

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domingo, 2 de dezembro de 2007

Vôo TP 728


Vôo TP 728 com destino a Lisboa...

São 18 horas e o avião está atrasado...já devia ter partido, mas não..parece que é habitual...não quero repetir a palavra que usaram "normal", como pode um atraso ser normal?

Estou na zona de boarding...e aguardo...a maior parte das pesoas comprou revitas côr-de-rosa...mas nem sempre as cores das notícias são suaves...lêem sobre o caso Maddie...A capa anuncia que os familiares de Kate estão preocupados porque ela não dorme nem come...não sei se por esta ordem...ou se não come nem dorme...

É um aeroporto pequeno...as lojas de free shop estão abertas mas há pouco movimento, nada comparável à afluência de Natal e Ano Novo que já se aproxima ou à mais longínqua época de Verão...

Talvez por isso o vai-vem de pessoas não seja particularmente interessante...uns jogam nas suas máquinas electrónicas, outros falam ao telefone, outros ainda, entretêm-se com o mediátio casal...não há olhares nem sorrisos cruzados nem ninguém suficientemente exausto para se esticar nos bancos a dormir...um grupo de jovens ri...estão demasido longe para os ver...adivinho os rostos em função das garalhadas...

Aviso que o meu vôo está atrasado, para não me irem buscar no horário... e ligo-me à Internet. Tenho o mundo no regaço... Retiro o cartão de memória da máquina fotográfica e introduzo-o no meu portátil...e aparecem-me imagens cheias de cor em slide show...

Revejo as fotos da Madeira...os últimos dias foram cheios...procuro imagens que me permitam reviver a intensidade destes momentos, elimino, rodo, selecciono, anoto e carrego para o blog...mas as fotos nunca contam tudo e por isso ponho-me a escrever...valerá a pena dizer que não me apetece partir, que já tenho saudades?

De repente uma chamada de uma voz feminina, metálica, impessoal, invulgarmente alta e estridente soa por todo o lado, interrompo...

Attention please...This is the last call...

Mas não, ainda não é para mim...

Volto para o meu exercício...concentro-me de novo no meu blog...
Já lá vão os tempos em que viajava com uma tesoura minúscula, cola, lápis de cor e um pequeno diáro de viagem...carregando misteriosos rolos fotográficos...imagens e efeitos desconhecidos...a aguadar a revelação...

Nessa altura, aproveitava a espera ou esperas para alinhar pensamentos, organizar as memórias...pôr ordem nas emoções, relaxar um pouco...e cortar e colar, fragmentos ds férias, das viagens, ingressos em museus, contas de retaurante, recibos de hoteis, bilhetes de transporte, desenhos em guardanapos, endereços anotados num pedaço de papel...um sem fim de pequenos nadas...

Mas um dia, confiscaram o meu pequeno tesouro, que por acaso era apenas uma tesoura pequenina...não pelo perigo que pudesse representar, era mesmo minúscula, mas porque cabia no conceito de tesoura, afinal era de uma tesoura que se tratava...Os serviços de segurança pós-11/09 classificariam como objecto interdito, sem especificar o tamanho...como se qualquer tesoura fosse passível de provocar um temível ataque terrorista, há anos que me acompanhava worldwide...mas ficou ali, num caixote de lixo, no aeroporto de Miami, logo após o RX e enquanto eu ainda apertava o cinto... a minha tesoura e companheira...em nome da segurança dos passageiros e por um mundo melhor, ficou pra trás...

São 18h30, continuo paciente, como eu muitos outros passageiros...É assim, que espero agora... Estou absorvida entre o blog e as fotos...e ouço a mesma voz estridente de sempre:

Attention please...This is the last call...

Oops, tenho que ir...é desta!

sábado, 1 de dezembro de 2007

Tempo para mim



Prolonguei a minha estada na Madeira, para tirar tempo só para mim...sem telefone, sem msn, sem emails...Fora do mundo...como há muito tempo não fazia...

Percorri a ilha, subi no teleférico, passeei pela Marina, observei os barcos de cruzeiro a partir, deambulei pelo centro da cidade, para constatar que é quase Natal e já brilham os enfeites natalícios, espreitei o mercado que estava fechado ao feriado e disparei a máquina fotográfica em todas as direcções...

Em termo de gastronomia tem sido inesquecível...pude apreciar o vinho branco local, provar a poncha (1/3 de mel, 1/3 de sumo de limão e 1/3 e aguardente de cana a temperatura ambiente), os fritos de milho, o pão de alho, o bolo de caco, as queijadas de requeijão, o filete de espada com banana, a espetada de carne em pau de loureiro, a mista de peixe, mariscos... e ainda mascar cana de açucar, beber batido de anona, abacaxi, maracujá...

Tentei ver o máximo, fazer o máximo no pouco tempo que me restava...e aqui estão as fotos para recordar sempre...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Palavras procuram-se

Há dias em que é uma prioridade, talvez até uma urgência...escrever, ordenar as ideias que surgem , procurar a palavra que falta ou a pontuação correcta. Noutros, nada sai, nem palavras nem ideias..e por isso impossivel pontuar o que não existe.
Hoje acordei com a cabeça cheia de palavras, pensei em anotar, perante a impossibilidade de vir aqui escrever nessa altura...chamadas telefónicas, preocupações, assuntos, outras emergências a sobreporem-se... tanta coisa a chamar, a reclamar atenção... e às 9h30 ter que estar a trabalhar....A decisão "fica para mais logo..."
Agora queria relaxar, distrair-me do peso do dia, aliviar a tensão e vim para aqui....mas surge-me uma caixa em branco...espero....não vem nada, não sai! Como vou preencher isto? Não sai...mas costuma ser fácil, epera...mais um pouco...
E então as ideias da manhã? Por onde param as palavras com que acordei cedo?Andam por ai a vaguear...não sei...mas se alguém as encontrar, por favor avise...quero-as de volta...sinto falta de as ordenar, sem elas fico sem saber o que dizer...

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Não vá o diabo tecê-las


"Esperemos simplesmente que as crianças que nascem hoje ainda tenham, daqui a vinte anos, um pouco de erva verde para os seus pés descalços, um pouco de ar puro para os seus pulmões, um pouco de água azul para embarcar, e uma cauda de baleia no horizonte para preencher os seus sonhos." Jean-Jacques Cousteau

Senti saudades de vagabundear na Marina da Horta, no Faial.

Na minha visita às ilhas açorianas, o coração ficou-me preso nas magnificas pinturas que cobrem toda a marina e que os velejadores executam meticulosamente antes de partir, "dá boa sorte", dizem os supersticiosos...e nestas coisas, o melhor mesmo é, está-se a ver , cumprir a tradição, "não vá o diabo tecê-las", porque há sempre estórias a confirmarem a maldição dos que ousaram levantar a âncora sem deixar o seu contributo artístico no magnifico cais da marina...e "quem te avisa, teu amigo é..."isso também sabemos...

Mas apesar dos velejadores serem supersticiosos, eu não sou, mas concordo que a marina tem a sua mística, e não hesitaria em fazer o melhor rabisco, tão perfeito quanto fosse capaz e pintá-lo com as cores mais garridas para que vibrassem ao sol.., não pela sorte ou azar que me trouxessem, mas porque me agradaria pertencer àquele imenso mosaico de cores e formas que se estendem por todo o lado...das paredes ao chão...e do chão até tocarem o imenso oceano...que por sua vez toca de leve o céu todo...

Esta pintura não se decora nem se fixa porque se reinventa e se renova a cada instante, a cada simples partida, a cada adeus, como um enorme camaleão preguiçoso e esticado ao sol...as mais recentes sobrepondo-se às mais antigos que se vão gastando de tanto serem olhados, desbotando de tanta luz, perdendo o brilho de tanto sol, cedendo espaço a novas criações...metamorfoseando-se ao sabor das marés que espreitam o Pico...

E é bonito e emocionante aquele painel, porque é o testemunho de vidas que se cruzam por ali, por certo sem ali coincidirem ao mesmo tempo, sem se tocarem ... mas que sem dúvida foram tocadas por esta mesma paisagem de beleza ímpar...

Desejei voltar, para ficar por ali, perdida, meia distraida, quando me reformasse, a inventar estórias para aqueles desenhos, a imaginar fantásticos percursos e poder ir ao Peter para encontrar verdadeiros herois solitários, de carne e osso e pele curtida, olhar vago e imenso... que chegam e partem de e para todos os cantos do mundo...
Os portos devem ser lugares fabulosos! De vida! De saudade! De encontro! De esperança tambem...De herois anónimos de que ninguém fala...mas esta marina é apenas mágica!

Valha-me isso

Estou enfiada num quarto de hotel no Funchal...de nada me servem as espreguiçadeiras da piscina ou a varanda com vista para Atlântico...olho os turistas com deconfiança...só eles têm direito a usufruir de tudo...

Estou em trabalho e a responsabilidade às vezes provoca-me cólicas...um horror! Normalmente não é assim...mas desta vez é...

É injusto, mas tem que ser.... As vezes o meu trabalho castiga-me...espreito o mar e queria sair pela janela a voar... mas depois penso que amanhã tenho que entrar, pelos meus próprios pés, na sala de formação...penso melhor e recuo, volto para o meu regime de clausúra...pelo menos inspirei a noite, ouvi o silêncio...Valha-me isso!!!
Volto para o ecran do computador....

domingo, 25 de novembro de 2007

És o máximo...








Olhou para as pedras de gelo no seu copo...
Claro que era whisky o que estava a beber e, claro que gostava de sentir no torpor dos sentidos, o invocar de recordações perdidas no tempo... sentimentos antigos... presos num passado longínquo... talvez irreais...

Um dia, predisseram-lhe o futuro, mas ele, sempre céptico, nunca quis acreditar em ciências divinatóroias...

E agora, tudo o que desejava, era esquecer as imensas linhas do destino, que cruzam, descruzam, confudem e se fundem para se perderem para sempre na sua palma da mão...

Já não destinguia bem, claro está! Seria da música que estava demasiado alta? Ou do fumo espesso?

Hà quantas horas estaria ali? Pressentia que havia muita gente à sua volta, mas ele estava numa espécie de cegueira...

SÓ...completamente SÓ...como todos os demais...a quem importa?
Abandonado e esquecido num bar... encostado ao balcão... apenas ele e o seu whisky on the rocks... afogado naquele líquido...
-"No soda, please"!

Não recordaria nenhum rosto, nenhum olhar, nenhuma presença... apenas as pedras de gelo no seu whisky preferido... e talvez uma música vaga... um refrão repetido, monótono e seguramente demasiado alto! E claro. o fumo...o nevoeiro que apagava os contornos e adoçava a triste realidade...

Continuou a beber...sempre...e mais... quantos seriam? Não tinha a miníma ideia... saberia no ticket da máquina registadora...mas que importa? A quem importa?
-"Mais um, por favor..."
Só mais um...e só mais outro ...e ainda só...

SÓ...apenas...no meio da multidão sem rosto...sem identidade...como ele próprio, diluido num liquido dourado...

Perdeu-se nas pedras que se derretiam lentamente no alcool amarelado, envelhecido... E depois, um enorme esquecimento sobrepôs-se a tudo...

Era novo? velho?..o whisky? Nunca saberia...

Acordou já tarde, no final da manhã... a boca tão amarga! e ouviu uma voz desconhecida e rouca sussurrar-lhe ao ouvido:

-" Querido, tens mau beber" ..."mas, mesmo bêbado, és o máximo!..."

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Maria Callas, O Mio Babbino Caro

terça-feira, 20 de novembro de 2007

impromptus-schubert

As nossas mãos


Sempre atarefadas e multifuncionais
entretidas a fazer coisas e mais coisas
e ainda muitas mais
Um dia tocaram-se
e ainda que
muito ao de leve,
pararam subitamente...
entrelaçaram-se
e saborearam o contacto,
ainda que estranho
apenas a pele na pele
ainda assim desconhecidas,
as mãos apertaram-se forte,
e tão mais fortemente
foram permanecendo...
Por um instante apenas?
Ou até aquela esquina?
Talvez para o resto do caminho?
Quem sabe se por um momento de ilusão?
Mas forte...e nada mais

domingo, 18 de novembro de 2007

Diálogo

Um dia ele agarrou-lhe o rosto entre as mãos e chorou baixinho:

-Vai haver sempre um sabor a vazio nos teus beijos e um rasgo de paisagem desértica no teu olhar

Ela desviou a face, sorriu vagamente e respondeu numa voz sumida...

-Querido, nada é definitivo...

No limiar do real


O sítio pouco importa...havia uma linha de água infinita, onde o rio se entrega ao mar...Ela recordaria aquele fim de tarde, mas só muitos anos depois quereria aí voltar, nessa altura já tinha perdido a memória do local...era péssima a orientar-se... isso todos sabiam...

-Estás a deixar arrefecer o café-disse ele, apenas para cortar o silêncio que se instalara...
-Devias saber que gosto dele frio- respondeu-lhe ela, sem que os olhares se cruzassem, num tom de indiferença, enquanto compôs uma mecha de cabelo desalinhada sobre a testa...

Claro que ele sabia, mas a luz fria e branca de inverno cedia ao entardecer...e o sol era engolido naquela imensidão de água...Ela recordaria aquele momento sim, mas para já ainda não desconfiava de nada e iria demorar a perceber..."também o tempo precisa de tempo"-diria mais tarde.

Não há urgência, nem brisa, nem sinais de maré...os ponteiros do relógio param e tudo fica irremediavelmente imóvel...não interessa que exista ainda consciência do que se passa e dos acontecimentos que se irião precipitar..

Ela começou a rabiscar um guardanapo, cobrindo-o de pequenas linhas paralelas, em formas geométricas, ele observava-a, como se tentasse decifrar um enigma formado por uma infinidade de traços...

Continuavam em silêncio, ele desejou ainda, pela milésima vez, abraçá-la, envolvê-la, até aconchegá-la...mas ao estender os braços compreendeu que ela era ou estava inalcansável...e no turbilhão de memórias que perturbaram aquela paisagem estática, queria apenas ouvir, nem que fosse por uma última vez, a sua voz, com retoques de doçura "vá, por favor, conta-me uma história", mas ela estava fundida com o infinito, no único sítio donde ele jamais poderia resgatá-la.

E uma certeza sobrepôs-se a tudo, a de que esse tempo não regressaria e ele não voltaria a adormecê-la...


Saudades do futuro


Manteve o livro aberto naquela mesma página, mas o olhar abstracto, seguia a estreita coluna de fumo do cigarro a elevar-se, lembrava-lhe vagamente a figura estilizada de uma bailarina, a executar no espaço movimentos livres, uma coreografia em "slow motion", de alguém que se tenta libertar do corpo, da gravidade, da própria materialidade ...

Também ela tinha uma série de sonhos em suspenso...e lembrava-se bem, o momento preciso em que tudo de repente mudou...e o tempo interior passou a arrastar-se no ritmo inverso da vida...como os relatos das estórias de encantar...

E o futuro? Mas que futuro? Conhecia apenas os dias que se sucediam como as contas de um rosário, como missangas de um colar...uma certas, outras irregulares mas todas seguidinhas...e de repente sentiu saudades do tempo em que conhecia o futuro...

sábado, 17 de novembro de 2007

Fica para outra vez...

Na penumbra, a um canto, junto às máquinas de flippers, existia este "dispensador" de música, carregado com os sucessos da altura, nas palavras de hoje, repleto de música "pimba"...
Quem quisesse cortar o silêncio reinante, sobrepor-se ao barulho da máquina de café ou fosse dominado por um impulso romântico em plena "hora-da-bica", só tinha que ler as etiquetas nos botões, colocar a moeda certa na ranhura, em escudos claro, seleccionar a música e, por uns breves minutos, ecoavam por todo o café, para pagante e não pagantes, estendendo-se á zona exposta à luz, mesmo juntinha à janela, os acordes de refrões conhecidos que eram trauteados "cause I miss you, I miss you...ohhhh I miss you..."
E a selecção recaia invariavelmente sobre música romântica, vozes que choravam dores de amores ingratos, não retribuidos, traidos e as saudades da separação, da perda... e a máquina lá chiava... num regiso de péssima qualidade, of course I miss you... Ohhhhh!...É que não havia outra escolha possível...
Apesar de estarmos em plena época da revolução de Abril, e o café ser frequentado por uma "certa esquerda", na hora da nostalgia, o Zeca não se encontrava entre as opções... e, é bom de ver, que os males de coração atacam à direita e à esquerda, quem é que não tem saudades de alguém? Há-se ser sempre assim...
É claro que a maioria dos frequentadores que enchiam a máquina de moedinhas, faziam-no tão somente pelo gozo, pelas gargalhadas que as letras provocavam, sobretudo os intermináveis refrões e pelo ridiculo das músicas...era um moeda em troco de uma boa disposição instantânea...e por isso a máquina fez grande sucesso na altura...
Mas a sua sorte iria mudar, as máquinas cairam em desuso, desapareceram dos locais com afluência. Actualmente existe uma nova versão, estamos na era digital, claro está! As pessoas andam por aí, sisudas, sonâmbulas, surdas aos sons da cidade, alheadas do que acontece à volta, ligadas umbilicalmente a um ipod...que garante em exclusivo, o que se quer ouvir...é mais cómodo e vai para qualquer lado. Não há embaraços públicos para quem tiver um súbito apetite por qualquer coisa do tipo I miss you...mas também não é tão divertido, garanto.

Hoje estava sonolenta, levantei-me com o propósito de escrever...escrever o quê? Pois é, o que quer que fosse ainda estava muito indefinido, vago, provavelmente ainda a germinar, a aguardar o momento... e apeteceu-me ter um destes dispensadores, em que, a troco de uma simples moeda, eu pudesse fazer sair uma fiadinha de palavras, pimba ou não, para introduzir aqui no blogue...

Só depois é que reparei que ontem, o arrumador de carros, me levou os trocos todos...e sem moedinha, não há nada para ninguém...Por isso fica para outra vez...

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Fernando Pessoa, Eros e Psique...


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida.
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, ainda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Alice e o gato

- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?

- Isso depende muito de para onde queres ir – respondeu o gato.

- Preocupa-me pouco aonde ir – disse Alice.

- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas – replicou o gato.

“Alice no País das Maravilhas”
Lewis Carroll

Se não tivermos objectivos dificilmente podemos orientar-nos, escolher uma direcção e um caminho. Os objectivos implicam escolhas pessoais, dependendo das prioridades que cada pessoa atribui a uma imensidão de valores. Mas existem outros factores, desde logo a possibilidade de escolher mas também o de surgirem as oportunidades certas para a concretização…
Mas sim, definir objectivos “é meio caminho andado”…e permite ter uma visão estratégica sobre a vida, o mundo...e o que quer que seja...Há pessoas tão perfeitas!

Concordo com tudo e tenho que treinar, no contexto do meu trabalho, a operacionalização dos objectivos e toda uma estrutura de argumentos, regras, exercícios e blá blá blá blá…...vou dispensar-me de contar tudo aqui...

Parece fácil mas não é...pelo menos para alguns... e a atitude da Alice é comum a muitas pessoas interessantes que conheço que não têm certezas absolutas, não sabem tudo à partida nem casam com a casa toda montada e os cortinados pendurados...tudo perfeito e tão lindinho...
Existem pessoas que se deixam seduzir pelo caminho, atravessam a vida como viajantes, escolhem mais a estrada que os destinos..e a mim esta ideia agrada-me... porque a maioria das coisas relevantes só se percebem totalmente quando passaram e nos podemos distanciar delas...e dizer...ah...se soubesse o que sei hoje!....inútil....a vida não funciona assim...com algumas excepções...
E as excepções são justamente os gatos sabichões...que desprezam os percursos e estão prontos para vencer as maratonas, derrubar barreiras, contornar obstácilos e avançar, avançar sempre, rumo a um destino pré-definido..qual salmão na desova no encontro com a morte...

Pessoalmente, sei que por vezes sou tentada por caminhos, às vezes corta-matos... e ainda hoje não sei qual é o meu destino, mas vou sabendo por onde ir…por isso discordo do gato, porque o caminho importa sim…a viagem pode valer por tudo o resto...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Love me or love me not

Estou a carregar acriteriosamente as fotografias tiradas em Angola...porque sinto uma tremenda dificuldade em escolher, talvez até incapacidade... é que gosto delas todas. Não é uma questão de imodéstia, o verdadeiro motivo é que cada imagem me faz viajar no tempo e no espaço e me reporta a uma situação, a uma descoberta, a um testemunho, a um momento preciso, a uma estória, sempre à volta do mundo das emoções...e foram tantas, nesta terra tão generosa...Está assim justificada a falta de exigência estética, técnica ou qualquer outra...Não é grave, posso sempre regressar e corrigir a minha falta de selectividade...além de que os motivos são perfeitamente compreensíveis…

A minha relação com Africa é inexplicável...mas bem no fundo, no fundo sabemos que, se procurarmos as causas das coisas, tudo é explicável e explicado, tudo está carregado de sentido e significado, porque "o coração tem razões que a razão desconhece" e estas normalmente são sempre fortes, muito fortes....Mas posso afirmar que é uma relação muito antiga, quase tão antiga como eu, de facto até mais antiga do que eu...e remonta a duas gerações anteriores...Não posso esquecer as estórias de família, repetidas vezes sem conta, pela voz da minha querida avó mas também pelos pais e tios...Tudo documentado em álbuns de fotografias e objectos que constituem para mim autênticas preciosidades...relíquias que estimo e prezo, percebe-se bem porquê…

Africa, viver em Africa, fez sempre parte do meu imaginário de criança, de adolescente e de adulta...nasci e cresci com o coração virado para sul...e é para sul que me oriento sempre...não há volta a dar...gosto daquelas latitudes...do calor e dos cheiros, dos sabores e do ar, das cores e dos sorrisos, da crianças e das paisagens infinitas, de horizontes para lá do que adivinhável...

E se é frequente perder o Norte, certamente que sim, não será fácil perder o sul, com certeza que não...e sabemos bem que as relações idealizadas estão carregadas de romantismo e fantasia e facilmente resistem ao desgaste, ao tempo...

O meu olhar também é peculiar, a prová-lo está a minha câmara que captava sempre outras imagens, percepções, perspectivas e realidades...que em nada coincidem com o olhar dos outros expatriados meus colegas, que estavam e se mantêm por aquelas paragens apenas para ganhar "o seu" ...e os africanos sentem isso, sabem quando o respeito vem de dentro ou é apenas a atitude "politicamente correcta", porque estas coisas sentem-se...vá se lá saber como e porquê...mas eles sabem-no...

Africa é pois uma questão de "love me or love me not", desculpem-me os puritanos da língua, mas estou a escrever under english influence...mas também posso traduzir em línguas daquelas paragens, é que aprendi a dizer “Muxima wami wa Angola”, e é verdade, mais “Muxima wami wa Africa”...pois é....

Titi, tenho que ir à net para fazer o minha homework


Claro que antigamente não era nada disto! recordo a ardósia, a obrigatoriedade da caneta a tinta permanente, que deixava borrões nos cadernos e manchas entre os dedos...

Para quem não tenha vivido nesses tempos, sempre direi que cantávamos o hino nacional e rezávamos a ave-maria e o pai-nosso como quem recita a lengalenga da tabuada 2x1dois, 2x2quatro, 2x3seis e por ai fora...até parar nos 9x1nove, 9x2dezoito, 9x3vintesete...e 9x10noventa!!! Tudo o que desejávamos era que chegasse o NOVENTA!

A única diferença entre essas actividades colectivas e em coro, é que cantavamos a tabuada sentados, enquanto as rezas e o hino impunham que permanecessemos imóveis, de pé...e conforme o caso, fizessemos um ar compenetrados de pequenos beatos ou de minituras de heroís nacionais.

Naquela altura, se estivessemos nas nossas carteiras de madeira a fazer os trabalhos, tinhamos que nos levantar, sempre que um adulto entrasse na sala e, mantermo-nos de pé, em sinal de respeito, até nos ser dada permissão para sentar de novo.. Escusado será dizer, que um adulto era sempre respeitável...

Ainda havia as idas ao quadro, aí, era mesmo desejável que acertassemos, que encotrassemos as palavrinhas certas ou o números correctos, dali de cima do estrado, sentiamo-nos ainda mais minusculos e vuneráveis, expostos a todos, objecto de tantos pares de olhos atentos e mesmo ao ladinho da régua...sim, havia régua e não tinha um mero efeito intimidativo, era mesmo para usar, e era usada...e um dos piores momentos foi certamente testemunhar as réguadas aplicadas aos nossos colegas e amigos e não poder dizer ou fazer nada...fazia-nos a todos cumplices da humilhação...

Ficávamos sem intervalo...mas o pior era que o castigo com frequência se prolongava para casa, bastando um pequeno recado no caderno, e lá tinhamos nós num "hoje não brincas", "não vês desenhos animados", "não isto e aquilo" após um dia que não tinha corrido especialmnte bem ...

Os adultos estavam todos feitos uns com os outros e legitiavam-se uns aos outros, até davam uma "conotação afectiva" aos seus actos de violência..."se bate é porque se importa contigo..." e porque o complô entre os professores, os pais e a sociedade...tinha a nobre missão de transformar meninos maus em meninos bons...e sim, eles tinham a formula...e não era uma tarefa simples!!!

E era bom que o processo de conversão do meninos maus em meninos bons tivesse êxito, porque a haver qualquer falha e, apesar do esforço dos "grandes", se nós na altura tão crianças teimassemos em ser maus, mais tarde iriamos presos para trás daqueles muros assustadores e cinzentos com raras visitas da família e quando moressemos o destino implacável seria bem pior, pois niguém nos poderia livrar de arder para sempre no fogo do inferno sem fim, de labaredas ávidas....num castigo interminável...e sem direito a visitas...ponto final.

Por isso, sorri quando a "minha" Ana me põs fora do computador e disse num português quase irrepreensivel "Titi, tenho que ir à net para fazer o minha homework"...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Florbela Espanca, Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.

Pedi à Vida mais do que ela dava;

Eterna sonhadora edificava

Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,

E tanto beijo a boca me queimava!

E era o sol que os longes deslumbrava

Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...

Atrás do sol dum dia outro a aquecer

As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,

Que há-de partir também... nem eu sei quando...

Florbela Espanca, Se tu viesses ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca, Ser Poeta

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

domingo, 11 de novembro de 2007

Number 5


sábado, 10 de novembro de 2007

In the UK yehhhhhhhhh


Having fun as we always do! Don t we?

Manha no parque


Encontramos sempre formas de nos divertir, por isso agora sinto muito a tua falta...mas as primas falam muito em ti e o Alex vai adorar quando perceber que tm um primo grande para brincar com ele e protegê-lo

Vai acontecer...no Natal

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A menina da flor de agua doce




É uma estória impressionante a desta "menina afegã" cuja identidade se manteve desconhecida apesar de ser uma das fotogafias mais famosas do mundo...

Steve McCurry fotografou-a num campo de refugiados afegãos de Nasir Bagh no Paquistão, durante a invasão da União Soviética ao Afeganistão, em 1984.

Em 1985, o seu rosto e o seu olhar verde percorreram o mundo, na capa da revista National Geographic, tornando-se um símbolo de sofrimento, dignidade e resiliência do seu povo... Mas da "menina afegã" nada se sabia...

Steve McCurry, tentou localiza-la em diversas viagens ao Paquistão e ao Afeganistão...e encontrou-a de novo, 17 anos depois numa zona remota do Afeganistão...


Chama-se Sharbat Gula, o que significa menina da flor de água doce... a orfã pertencente à tribo pastena tornou-se, após um percurso de vida atribulado, uma mulher, mãe de 3 filhas, que ainda se lembrava do momento em que fora fotografada por Steve McCurry, porque nunca o tinha sido antes ou depois... Desconhecia que a sua imagem tinha dado a volta ao mundo em fotos, posters, pins, tapetes, calendários e numerosas publicações... e que era a fotografia mais emblemática da NG.

Ela foi a inspiração para a constituição de um fundo da National Geographic Afghan Girls Fund que patrocina a educação de crianças e mulheres afegãs, criando novas oportunidades...
Sharbat Gulamas professa a religião muçulmana, e por isso foi o marido que permitiu que ela fosse entrevistada e mais uma vez fotografada, o que aconteceu para um documentário da NG, após o que a menina se escondeu por detrás da burca e regressou para o anonimato...
Mas deixou-nos os seus olhos de menina da flor de água doce para nos relembrar o quanto ainda há por fazer...

O seu rosto continua a ser um símbolo dos refugiados...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Barbara - Dis Quand Reviendras-tu

Freedom

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Acordar custa

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Stop violence

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Eu fui a 227446ª assinatura, e tu?

O sentido estético e o sentido ético...

Um artista da Costa Rica, Guillermo Habacuc Vargas, expôs um cão vadio faminto numa galeria de arte. O cão estava preso por uma corda curta. Ninguém alimentou ou deu água ao pobre cão que morreu durante a exposição. Guillermo Habacuc Vargas foi o artista escolhido para representar o seu país na "Bienal Centroamericana Honduras 2008". Existe uma petição onde é pedido que ele não receba este prémio.

http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Para que lado gira a mulher?



Clique em cima da imagem e diga para que lado gira a mulher? No sentido do relógio ou em sentido contrário ao do relógio???
Observe a figura de fundo. Segundo alguns estudiosos, se você vê a mulher girando no sentido horário, significa que trabalha mais o lado direito do cérebro. Se, no entanto, você a vê girar no sentido anti-horário, utiliza mais o lado esquerdo do cérebro. Faça a experiência... O teste é realmente sensacional. Comecei vendo o giro no sentido horário. Quando começo a formular mentalmente questões matemáticas (que usam o lado racional do cérebro, o esquerdo), imediatamente ela muda o sentido de giro para anti-horário. Se eu começo a cantar, nova mudança para o sentido horário (cantando você usa o lado direito, subjetivo, artístico). O mais interessante nessa fórmula que encontrei é que consigo ver o instante em que ela pára e muda o sentido de giro. E as alternâncias provocadas pelos focos em temas objetivos e subjetivos sempre funcionam conforme indicado no primeiro parágrafo.
Carlos Alberto Teixeira, o CAT do caderno "Informática Etc..." do "O GLOBO"
Colaboração: Mara Alice Fernandes (Pelotas/RS)



Nem bom vento, nem bom casamento?

Gostaria de saber se existe alguma congénere da AHIGE - Asociación de hombres por la igualdade de género em Portugal e até gostaria qe existisse sim...

Conheço alguns bons exemplos de militância masculina a favor da igualdade de género...felizmente! mas muito me entristecem os vulgares exemplos pró machistas de mulheres...
A vida é o que é...mas não tem que ser assim...e sinto-me pessoalmente muito responsavel pelo facto de não ter motivação para me envolver e intervir cívica e políticamente...condição necessária para que se operem mudanças significativas...e denúncio publicamente e em jeito de penitência a minha alergia pelo poder...
Mas um dia destes temos mesmo que mudar as coisas...por um mundo melhor, claro está...com a ajuda dos homens, não só pelos e para os nossos filhos e netos mas por e para nós de forma a que possamos ir ainda a tempo de fruir de uma relação mais plena, igualtária, construtiva...e JUSTA.
Já é tempo...e ambos merecemos....
Por isso, deixo aqui o comunicado da Asociación de hombres por la igualdad de género e o site http://www.ahige.org/ ...é sempre positivo partilhar boas experiências e exemplos...podem inspirar-nos..espero semear boas ideias por ai....quem sabe o que pode nascer
RUEDA DE HOMBRES CONTRA LA VIOLENCIA MACHISTA

Poco a poco, va surgiendo una voz diferente. Los hombres por la igualdad estamos consiguiendo que nuestro mensaje llegue a más sectores de nuestra sociedad. Para ello, es muy importante que seamos capaces de construir, entre todos, un nuevo referente de masculinidad, basado en valores como el respeto, la igualdad, la solidaridad y la no violencia. Un mensaje que diga y nos diga que otra forma de ser hombre, es posible.

Tras la positiva experiencia del año pasado, en que vivimos la primera manifestación de hombres contra la violencia machista, en 2007 han surgido diferentes convocatorias de hombres por la igualdad contra la violencia de género. Nos felicitamos y felicitamos a los compañeros que a lo largo de todo el Estado, se están implicando en esta actuación social tan necesaria.

Varias ciudades acogerán estos actos: Sevilla, Madrid, Santiago, León, Barcelona, Málaga, Córdoba, Granada… y más.
Consistirá en la composición de una rueda de hombres y\nla lectura de un manifiesto. El lema específico elegido es: "VIVAMOS SIN\nVIOLENCIA". La convocatoria se plantea con dos objetivos:
En Málaga, haremos una RUEDA DE HOMBRES CONTRA LA VIOLENCIA MACHISTA, el próximo sábado, día 20 de octubre a las 19:30 horas en la Plaza de la Constitución.
Consistirá en la composición de una rueda de hombres y la lectura de un manifiesto. El lema específico elegido es: "VIVAMOS SIN VIOLENCIA". La convocatoria se plantea con dos objetivos:
- Hacer visible a la sociedad y, especialmente, al colectivo masculino, la existencia de hombres que trabajan activamente por la igualdad y contra la violencia machista.
- Invitar a los hombres a que participen en la próxima manifestación contra la violencia de género del 25 de Noviembre.
Esperamos contribuir a un cambio social. Queremos un mundo en que los hombres contemplemos el problema de la violencia ejercida sobre las mujeres, como un asunto propio en el que hemos de implicarnos sin reservas.
Todos y todas hemos de posicionarnos claramente contra la violencia de género.
Todos y todas ganamos con la igualdad.
Nos vemos el sábado, día 20, a las 19:30 horas, en la Plaza de la Constitución (Málaga)

Onde é que isto vai parar?

Fui dar um Seminário sobre Liderança à Escola Superior de Tecnologia de Oliveira do Hospital e outro em Coimbra no audititório do Instituto Superior de Engenharia para os alunos do Instituto Politécnico de Coimbra, no âmbito do projecto nacional Poliempreendedorismo...

São os tempos, os efeitos do Tratado de Bolonha a desafiar as instituições e os professores, mas acima de tudo, a criarem oportunidades novas aos alunos...propondo uma mudança de paradigma na relação entre os actores e os saberes, em que os estudantes passam a ser o centro do mundo mágico que é a aprendizagem...E eu sou reconhecidamente PRÓ...e por isso é um privilégio militar a favor do empreendedorismo com estes jovens universitários...

E comecei o seminário com um pedido à minha plateia...
"Quem acha que o mundo NÃO MUDOU nos úlimos 20 anos? Mãos no ar..." e para me certificar que não se trata de timidez...formulo a pergunta ao contrário......"Quem acha que o mundo MUDOU nos úlimos 20 anos? Mãos no ar..."
E depois vou reduzindo..para 10 anos, 5 anos...e acabo:
"Quem acha que o mundo NÃO VAI MUDAR nos próximos 5 anos? Mãos no ar..."

É assim que introduzo o tema "Um olhar sobre a liderança..." foi assim que lhe chamei...Mas não faço isto apenas como um icebreaker, porque é giro e está tão na moda...mas porque é muito importante que as pessoas actuem em função daquilo que já sabem...é que isto está mesmo a mudar e não vai parar...
Já é claro que cada vez existirá menos espaço para as pessoas não qualificados e que este impulso vai deixar muitos de nós para trás...está a deixar...e os não qualificados do futuro...não são "os outros" mas quem quer que se distraia ...enquanto o mundo avança...sempre...Mas também a verdade é que hoje integramos gestos no nosso dia a dia, que pressupõem competências com as quais nem sonhávamos há alguns anos atrás, meses atrás...

Por exemplo, hoje como o meu computador estava preguiçoso, comecei o dia a desfragmentar o disco...
Eu não percebo nada de infomática, mas a este ritmo...que será que estarei a fazer a esta hora no dia 7 de Novembro de 2012? Os computadores serão completamente diferentes...se calhar não existirá esta função...estarei a fazer qualquer coisa que hoje nem existe... Senão for assim, qual será a alternativa? Na melhor das hipóteses terei direito a um subsídeo que me permita não morrer aos olhos de todos...que é desagradável, humilhante...e incomoda quem passa...por isso prefiro não ser eu a desfragmentada, por isso esforço-me por contribuir para que não sejam aqueles com que me cruzo pessoal ou profissionalmente e sobre os quais sinto responsabilidades...é a minha parte, tento fazê-la...

E agora deixo aqui a pergunta "quem é que desfragmentou o disco do computador na última semana?"
É claro que o computador fica mais rápido, o meu ficou! Por isso se ainda não o fizeste, deixo aqui um conselho, desfragmenta o teu disco uma vez por semana...vais sentir a mudança...

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Mete a virgula

"Se a mulher soubesse o valor que tem o homem ficaria de joelhos à sua frente."

MSN


Esta é a hora que também é a sua !
É um espanto encontrá-la sob o sono da cidade !
É como se houvesse um espaço e um tempo próprios fora do próprio espaço e tempo em que todos circulam...
Moonwalker

Casada...mas pouco

Há uns tempos atrás, um contemporâneo de curso que não via há muito tempo, convidou-me para jantar......O convite inesperado surgiu da conversa com um amigo comum, em que falaram no meu nome e vai daí ligaram-me em grande galhofa...
-Adivinha quem te quer falar?
-Ui, está frio, muito frio...
-Vou-to passar...
Eu não adivinhei, era o Miguel, depois de falarmos ao telefone, trocámos os contactos e ficou combinado que quando viesse a Coimbra em trabalho, teria muito prazer em me rever, claro está, se eu tivesse disponibilidade...
E a oportunidade chegou com um julgamento que foi fazer a Lisboa, pararia no caminho de regresso...de facto não nos viamos há tantos anos que até é um escândalo confessar e brincámos com a situação...eu ria-me e dizia-lhe que era quase um blind date e que arriscava não me reconhecer e ir para a mesa do lado, ele respondia-me que não me preocupasse porque garantidamente, quando o visse, me ia arrepender de ter aceite o convite...e por ai adiante!
O jantar chegou e até foi engraçado, reinava a boa disposição...a comida estava excelente, ele insistiu em mandar vir uma garrafa de Moet Chandon e dai para a frente o riso soltou-se, as memórias seguiram-se....relembrámos estórias de curso, episódios já esquecidos, foi muito divertido...e brindámos...

No meio das garfadas e gargalhadas lá fomos acertando o passo à vida...tantas novidades e surpresas...ele com duas "ex's" e avultadas pensões de alimentos a pagar...eu mais comedida mas já com um trunfo...um neto mais velho que o seu filho mais novo...fomos saltando de estória em estória, quando de repente começou a trovejar...não conseguimos chegar a tempo aos nossos carros e ficámos literalmente encharcados...a ponto de, na sua versão, as mangas do blazer terem encurtado de tal forma que não pode mais vesti-lo...
Apesar de estarmos desconfortavelmente ensopados, ainda fomos a um bar...onde por mero acaso, encontrámos logo uns colegas de curso...e a conversa alargou-se, e estendeu-se naquela de cotas que subitamente não lhes ocorre mais nada que não sejam as memórias que nunca mais existiram...mas que surgem em catadupa vá-se lá saber como e de onde...

Os colegas despediram-se e ainda ficámos no enredo das ex, dos filhos, dos desafios profissionais, e quando nos preparávamos pela milésima vez para sair, pedimos a conta e, começámos nos "pago-eu", "não-eu-é-que-pago", quando entrou o Dr. Silva, chamemos-lhe assim, que eu não conhecia pessoalmente, companheiro e suponho que também às vezes rival de lides partidarias, desportivas, autarquicas, sabe-se lá de que outras mais...do meu amigo...

Após as apresentações e as habituais deferências apercebi-me que estava a falar comigo na convicção de que eu era a 2ª ex do meu amigo...que por acaso, tem a mesma actividade profissional que eu...Fosse esse o motivo ou qualquer outro, a verdade é que o Miguel não desfez o equívoco e eu achei a situação divertida...de tal forma que, quando me foi acompanhar ao carro, desfizemo-nos em sonoras gargalhadas... E eu perguntava:

-Que mal fiz eu para merecer estar casada contigo? Como é que não desconfiou que estavamos bem dispostos demais para sermos casados?

Mas mentiras têm a perna curta... e há uns tempos atrás estava eu com um grupo de amigos quando avisto o Dr Silva e me apercebo de que está a aproximar-se...

-Olá Dra. que prazer...então e o marido, não veio?

-Não, Dr. tem trabalhado tanto que mal o vejo....

- Pois, sei bem o que é....

E dito isto, sinto o olhar da mesa em cima de mim...Apeteceu-me dizer-lhes...por favor, sejam discretos...

E foram, ninguém ousou perguntar a que marido se referia, afinal há anos sem conta que não me é atribuido nenhum, nem mesmo pelas piores línguas da cidade...Não houve comentários...só uns risinhos contidos...

De cada vez que saio, tremo...não venha o Dr. Silva querer noticias do meu marido...é que sinceramente não tenho!!!

Quanto ao Miguel, de vez enquando telefona e pergunta, com a sua pronuncia inconfundível do norte:

-Então como vai a minha legítima?

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Parabéns,David



Trabalho com adultos da idade da minha filha e tenho por todos o maior respeito...e depois fico a pensar em como também ela cresceu, sem avisar, e se tornou tão adulta...e que adulta!
Trabalha, estuda, mal tempo tem para dormir e parte-me o coração ver o msn dela ligado até de madrugada...enquanto trabalha...tento meter conversa mas ela corta:
"desc n posso agora"
ou
"acabar trabalho, bjs"
E temos que reconhecer...salvo raras excepções, a vida está muito dificil para quem está a começar...
Achei esta fotografia linda e elogiei a minha filha...elogiando-a...estou também a elogiar-me por a ter feito assim tão lindinha...e logo à 1ª....
Mas afinal não, a culpa é do fotografo...É que ela respondeu ao meu elogio:
-Sim, a foto está o máximo, gosto muito, para que serve estar casada com um fotógrafo?
E é bem verdade, tenho que me render ao talento e dar os parabéns ao artista com o desejo de que nunca desista...

Não mude de óculos...

Tenho um amigo que me mima com atenções, elogios e palavras de incentivos..

É claro que eu gosto de ser apaparicada..., todas gostamos, atrevo-me a avançar .... todos gostamos, porque não me venham cá com as diferenças de género relativamente à nossa necessidade de afago...é bom, claro que é...prá menina e pró menino!!!

Mas também tenho consicência da realidade...

E a realidade, é que somos todos uns adultos fantástico-e-mais não-sei-quês mas acima de tudo muito humanos e terrivelmente mortais...basta uma insignificante bacéria sem nome e "ai jasusssssssss"

Acima de tudo, ele é um cavalheiro, e claro está, noblesse oblige...

Às vezes tento refutar, mas agora decidi não contrariar...mais, até lhe vou pedir para nunca mais voltar ao oftalmologista e sobretudo "não mude de óculos..."

Bem se ele um dia chegar a ler este texto, o que eu espero....quero agradecer e retribuir-lhe, sim porque ele para mim também é todo especial...

Podemos empatar? Então, aqui ficam beijinhos....Já agora pode deixar um comment....se assim enteder...Ah ah ah

Alex, new babby

Tenho um amigo que me felicita pelo tom emocional do meu blog...
Ok, obrigada! Mas eu até sei que devia escrever sobre temas universais, filosóficos e politicamente correctos...mas não, vou escrever sobre o meu sobrinho novo, recentíssimo, ainda bebé de dias....que à nascença tinha 3. 9 kg e 53 cm...Ah! grande homem!
Claro que tenho preocupações ambientais e até faço separação do lixo, claro que me aflige a fome que mata milhões de crianças pelo mundo e graças a isso, quando era menina engolia as últimas colheradas de sopa, como se para compensar a fome dos outros, tivesse eu que ficar com a barriga empanturrada, claro que me afligem a pobreza, as desigualdades, a info exclusão e todas essas ameaças. Claro que... tudo isso...
Mas a verdade é que este espaço não tem por objectivo escrever sobre assuntos que interessam a todos... é apenas uma expressão da minha identidade neste mundo virtual...e sou assim...presa ao meu dia a dia, aos meus afectos, aos amigos e amores, passados, presentes e futuros...aos meus contos de fadas, aos meus lutos também, que nesta contabilidade da vida nem sempre é "soma e segue" e por vezes também temos que parar para descontar...
Mas a quem interessa que tenha nascido o meu sobrinho Alex Peter Guilherme? Pois interessa-me a mim e muito...Tanto que vou suspender as minhas actividades profissionais, os jantares dos encalhados, a escrita no meu blogue para o ir visitar...E por isso aviso...Não vou estar!!!
E já estou a viver por antecipação o cheiro a bebé, o calor da sua respiração profunda, o colo para o adormecer enquanto vou cantando "oh papão, vai-te embora, por debaixo do telhado..."
É claro que vou aproveitar para estar com as minhas sobrinhas, fortalecendo a cumplicidade entre gerações, construindo afectos e criando as memórias de futuro...e com a minha irmã o meu cunhado John...Vejam só a sorte que tenho em sermos uma só familia..
Mas também rever os amigos...Janine, Ling Ling, Francesca, Lisa, Maria João, que saudades!!!
Meus queridos todos, estou quase a chegar...claro, com a encomendas das chupetas que o Alex gosta de chicco mini gommotto ciliegia in puro cauchu neonato de 0 a 4 mesi e de forma redonda...
John, vai pondo o champagne no frigorifico...temos tanta coisa a celebrar TCHIM TCHIMMMMMMM!!!

Emocionalmente correcta

Pois é todos gostariamos de saber como...Mas existe e eu privo diariamente com uma pessoa com um coeficiente emocional elevado...digo-lhe isto e ela ri-se..."Oh, menina!...
É a minha Saozinha, pois claro!

As dificuldades económicas da familia obrigaram-na a abandonar a escola muito cedo, apesar da insistência da professora para que ela continuasse a seguir os estudos, "que era uma pena", apesar do desgosto da menina expresso em longas e duras lágrimas...a familia não se demoveu porque "tinha que ser" e lá foi ajudar no campo, que a vida é assim mesmo e as crianças não são poupadas, raramente o são...

Mais tarde, foi de criada de servir...e tivemos sorte de que nos tivesse adoptado desde os seus 14 anos...pois é, eu na altura tinha apenas 4 anos...Trabalho infantil? Ninguém falava nisso na altura...e ainda hoje não se fala o suficiente....

A menina cresceu, teve filhas e mais tarde uma neta e agora avó, continua a gostar de aprender e de recordar o prazer que a escola lhe dava quando era ainda criança e o dinheiro não chegava para cadernos...nem as letras se transformavam em pão...(É bom lembrar que ainda existem por ai meninos motivados, que não puderam e ainda não podem realizar os seus sonhos e seguir os seus estudos...)

Mas por este triste motivo, tivemos a felicidade de, desde então, a Saozinha integrar a familia e ainda trazer a dela...É sempre a mais entusiastica com os nossos sucessos e a mais resistente nas nossas horas mais longas...acreditando sempre que os momentos dificeis são apenas mais uma fase passageira... a menina vai ver...
Nunca ao longo destes anos, proferiu uma má palavra, revelou falta de vontade, fez o que quer que fosse contrariada...mesmo quando a vemos cansada ou doente esforça-se sempre por não nos incomodar...
E quer-nos sempre tanto bem que quando me sugere em jeito de pergunta: Cristinhinha, porque é que não leva aquelas calças que lhe ficam melhor? Claro que volto atrás e troco logo!

Hoje fiz-lhe esta surpresa, chamei-a e disse "Conceição, já estás na Internet"

E ela respondeu"Olhem bem onde é que eu já vou..." e selou o acontecimento com um abraço!!!

A minha amiga-borboleta

Nem tudo é fácil...nem tudo são boas memórias...e a vida também está carregada de momentos duros de ultrapassar...assim foi, com a doença da minha amiga Naty... Não é possível descrevê-la com palavras, nem esquecer a presença dela... e por isso a despedida também foi sui generis...

A Naty desenvolveu uma cancro fatal, daqueles que se aproveitam das hormonas, na fase pos parto e que constituem uma bomba-relógio silenciosa...Quando ela o detectou era tarde demais e havia detonadores espalhados pelo corpo todo...

Conheci-a já doente e a minha aproximação foi sempre com o intuito de a ajudar, sabendo que tinha escassos amigos em Portugal...e que se sentia muito mal com os tratamentos da quimio que repetiu diversas vezes... Comentava-se que a Naty já tinha excedido em muitas vezes o terrível veredicto do Prof Oliveira e que era referida sempre como um exemplo, um milagre, um caso de "fé", sei lá mais quê...

Mas apesar de tudo a Naty transpirava alegria e não obstante não ter cabelo, estar enjoada e ter consciência da evolução da doença, espalhava sorrisos e contaminava todos com a sua generosidade mpar e a sua beleza invulgar ... a sua presença era muito intensa.

Tenho que confessar que às vezes me custava pensar nisto tudo, fazer uma amizade que me prometia um sofrimento a tão curto prazo e que me prepararava sempre emocionalmente para os nossos encontros no sentido de lhe dar esperança, energia, um conforto, a palavra certa e se tudo falhasse o meu ombro...mas tal nunca aconteceu...foi sempre ao contrário...

Quando ia visitar a Naty, ela tinha tudo preparado ao milimetro..."we are going to pamper ourselves"...sim que a vida é curta , tão curta, "temos que aproveitar Ana Cristina..."
Desde o restaurante, às sessões de aromoterapia, às compras, aos passeios pela praia, aos cházinhos com as minhas especiarias favoritas...era tudo perfeito... De cada vez e sempre, uma experiência inacreditável, e eu conduzia de volta a casa, feliz, cheia, transbordante...Não me perguntem o segredo que também não sei...sei que era assim comigo e com todas as amigas..sei também que era de familia...
Quando o Nacho nos avisou da sua morte em Madrid, não queriamos acreditar...não era possível, ela resistira tantas vezes, e eu repetia para mim, em negação:
Vá lá Naty...
Por favor, Naty...
Agora NÃO!
Vá...aguenta-te amiga...
Mas ela já vinha encerrada, no seu ultimo percurso para Portugal, porque escolhera ficar num sitio lindo, numa aldeia no centro do pais...
E as horas que se seguiram foram alucinantes...contactar as amigas mais próximas, espelhadas por vários paises, encomendar flores, marcar viagens de avião, coordenar as chegadas para ir ao aeroporto...
Sentimo-nos imensamente ligadas intimas, na dor, na amizade, na perda...Era a nossa despedida da Naty, tinhamos que dar apoio à familia, conforto, a palavra certa... se tudo falhasse o nosso ombro...mas tal não aconteceu...foi ao contrário...Os pais não nos deixaram sair...tinham organizado tudo ao minimo pormenor...trataram de nós durante 3 dias..., consolaram-nos, enxugaram as nossas lágrimas e abriram garrafas de champanhe em ambiente de festa...a Naty tinha pedido para ser assim...please...don't cry!
A Jessy uma americana que tem um filho com uma doença terminal, chorava copiosamente, a criança adoarava a Naty...e ela tinha-o avisado...sabes tu e eu vamos em breve transformarmo-nos em 2 lindas borboletas...e vamos voar, voar, voar...
E por isso, se um dia me virem com um olhar abstrato, não me interrompam, certamente que estarei à procura da minha amiga-borboleta....

Relação feliz


É sempre muito imprevisível mas sentimos que arranjamos novas formas de nos divertir...

Eu própria me admiro com as nossas figurinhas...e pensar que andamos por aí...felizmente suficintemente irreconhecíveis, mas nunca se sabe....

Quem nos conhece não pode assegurar qual de nós é o mais infantil, quem é quem nestes jogos de faz-de-conta, mas isso tem alguma importância?

Estas considerações todas porque num dia destes , em contexto profissional, fiquei chocada com o relato de uma jovem mãe, que estando a contrariar a filha de 6 anos, para que esta se fosse deitar, a miúda terá respondido:
"Estás a ficar uma chata como a avó...."
Como quem??? Insurgi-me! Não tem que ser assim, nem deve ser...

Pelo menos no meu caso, tenho um neto que me ensina todos os dias a não ser cinzentona e a entrar no mundo mágico dele...É um privilégio, e eu digo-lhe isto muitas vezes e repito-lhe também:
"Ensina-me a ser tua avó"...
E quem não souber, que pergunte ao Tiago! Ele ensina...É que estas coisas também se aprendem, se quisermos...e eu não só quero como espero conseguir aguentar a pedalada dele para que ele continue a ensinar-me pacientemente!
É que juntos somos uns "ganda malukussssssssss...." Alguém duvida?

Um segredo

1 - Queria contar-te um segredo, lê a 5
2 - Estás com pressa? lê a 8
3 - És tão curioso, lê a 9
4 - Olha é o seguinte... é melhor leres a 15
5 - Eu não tenho coragem, por isso, lê a 17
6 - Gostaria de te falar, mas é melhor leres a 16
7 - Eu conto, mas... lê a 2
8 - É tão simples, por isso lê a 4
9 - Nao fiques nervoso, é uma questão de..., lê a 18
10 - Ainda não, mas... lê a 19
11 - Estás a ficar cansado, relaxa ... lê a 13
12 - Como eu estava a dizer... lê a 3
13 - Estás quase, quase a saber, lê a 20
14 - Gostava de jantar contigo, aceitas?
15 - Estás tão tenso, plizzzzzzz, lê a 6
16 - Tu ainda não entendeste não é? lê a 12
17 - Ah!! Estou com vergonha, lê a 7
18 - Eu nao sei se tu vais entender , lê a 10
19 - Lê a 11 com calma e saberás
20 - Agora eu conto, lê a 14, mas bem baixinho sim?!

citações

"Mieux vaut mourir de passion que crever d'ennui "
VanGogh

"Alguns casamentos acabam bem, outros duram toda a vida"
Woody Allen

"As emoções são contagiosas"
Daniel Goleman

"Sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança"
António Gedeão

Mesquinho é quem não soube amar, nem jamais provo a embriaguês do amor


Birds of a feather, fly together

I'm astounded by people who want to 'know' the universe when it's hard enough to find your way around Chinatown. (Woody Allen)

Há três coisas que não envelhecem: a integridade, o senso de humor e a ternura.» Yves Montand

"We cannot become what we need to be by remaining what we are."

Se fizeres o que sempre fizeste terás o que sempre tiveste.

O dia pior gasto de todos é aquele em que nós não rimos.
S Chamfort

Só aqueles que arriscam ir demasiado longe ficarão a saber até onde podem ir.
T. S. Elliot

O mundo é redondo, por isso aquilo que às vezes nos pode parecer o fim, é afinal o princípio.

Sê a mudança que gostarias de criar.
(Ghandi)

Como melhoram as pessoas depois de começarmos a gostar delas!
(Grayon)

A alegria não está nas coisas, está em nós.
Goethe

Se queres ter uma qualidade comporta-te como se já a tivesses.
William James

A maior descoberta da minha geração é a de que os seres humanos podem alterar as suas vidas alterando as suas mentes .
William James

A qualidade das nossas vidas depende da qualidade dos nossos pensamentos.
Marcus Aurelius Antonius

O segredo não está em dar as respostas certas mas sim em fazer as perguntas certas.

Na minha maneira de ver, se quisermos o arco-íris, temos que aguentar a chuva.
Dolly Parton

A nossa maior glória não está em nunca cairmos, mas sim em nos levantarmos de cada vez que caímos.
Confúcio

Tudo aquilo que buscas encontras; aquilo em que te esforças, floresce…
Louise Hart

Sucesso é conseguir o que se quer; felicidade é gostar do que se consegue.
Lawrence J. Peter

A felicidade é uma escolha consciente, não uma resposta automática.
Milred Barthel

A confiança, como a arte, nunca advém de ter todas as respostas; vem de estar aberto a todas as perguntas.
Earl Gray Stevens

A vida não examinada não merece ser vivida.
William Shakespeare

Pensar apenas no melhor, trabalhar para o melhor e esperar
só o melhor.
Christian D. Larson

domingo, 4 de novembro de 2007

É mesmassim - o meu blogue e eu

Criei um blogue...simplesmente porque tenho um amigo que tinha um http://mariopinhal.blogspot.com
Eu sei que isto não parece um motivo nobre mas é...não foi por inveja mas por um contágio bom...Fiquei tão encantada com o dele que corri a escrever-lhe "Também quero, PLIZZZZZZZZZZ cria-me um...."
Isto foi em Maio...apressei-me a seguir as instruções que ele me deu prontamente e por telefone...e lá estava ... foi fácil criar um blogue...o que demorou a despertar foi a coragem, porque os blogues, como tudo o resto, fazem-se aos pedacinhos...de pedacinhos...como mantas de retalhos... só é preciso lançar a primeira palavra... esperar pacientemente que depois as outras surjam...vá-se lá saber como...mas acabam por vir...umas atraz das outras...como cerejinhas com os pezinhos entrelaçados , emaranhadas, juntinhas...chegam aos magotes...
De cada vez que ia buscar inpiração ao seu blogue, a minha espreitadela deixava-me ambivalente...por um lado, entusiasmada com a sensibilidade das fotos, a profundidade dos pensamentos e a harmonia patente em cada pormenor, por outro lado, a paralisia total, o desânimo completo ..."como é que eu consigo criar um espaço assim, para mim"?
E de facto o meu blogue não é "assim" porque o Mario é único, único na sua forma de ser, sentir, fazer, ver e escrever...uma pessoa toda especial...e o seu blogue é o espelho de um ser raríssimo, de quem espreita o céu com a própria alma, de quem vê com o coração... Por isso chamei ao meu "mesmassim"...e acho que também eu sou mesmassim, pronto!

Mas a minha estória com o Mário merece ser contada...emociona-me muito. Ele sabe simplesmente transformar os meus pesadelos em folhos ...desde um tempo em que eu ainda não tinha completa consciência de existir...e estará na minha vida até ao fim do meu percurso, à distancia, via skip, gmail, telepaticamente...o que for! Já o avisei!

Em Africa, mais precisamente em Moçambique, a minha mãe adoeceu gravemente. Foi hospitalizada e eu fui entregue aos cuidados da tia Belinha...mãe do Mario e de mais 3...e desde então também minha...É dificil falar disto sem me comover...Durante todo o tempo da convalescença da minha mãe, que corria risco de vida, eu fiquei em casa da famlia Pinhal, na Beira, integrada nas rotinas, nos carinhos e brincadeiras...como uma filha...A Bi era e a única menina até então e por isso sentia ciúme da intrusa e perguntava "Oh mãe, quando é que esta miuda vai para casa dela?"

E regressei a casa porque a minha mãe sobreviveu...eu acho que não tive consciência de nada disto...brincava com o Mário tranquilamente...e ele impedia-me de eu ir para a água...temos um filme desse tempo...eu obtinada a insistir, ele a travar-me o caminho, protegendo-me do perigo de me afogar...

Quando a minha mãe me foi buscar deve ter tido um choque terrivel porque eu me recusava a ir, e chorava que queria a mamã...que era simplesmente a minha tia Belinha...e claro o resto da cachopada, especialmente o Mário...Eu não tenho registo desse momento, mas o Mário tem, ele também funciona como uma memória colectiva, recorda-se ainda da cena em pormenor em que os meus pais me foram buscar!

Passamos anos sem nos ver...mas continuamos almas-gemeas. Não há nada a fazer. Somos irmãos ...

Desde então ele insiste em não deixar que eu me afogue, trata-me por "menina", "princesinha dos folhos" contagiando-me sempre com as melhores emoções, restituindo-me a serenidade nos momentos conturbados, apaziguando as minhas dores, cicatrizando as feridas profundas...com o seu o enorme bálsamo da amizade incondicional...e muito, muito mimo...

E foi assim, que o Mario me conduziu até ao meu blogue...E agora, como é? Quando é que me visitas, pá?

Poema II, Alberto Caeiro

'Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...'

sábado, 3 de novembro de 2007

Obrigada Paulinha!!!

Bem, seria injusta escrever sobre a amizade sem referir uma pessoa muito especial....aliás ela já reclamou num comentário...

Chama-se Paula e conhecemo-nos há muito tempo...aquilo que ressalta à vista num primeiro contacto é ser ela uma mulher invulgarmente simpática, sexy, bonita, etc...daquelas de provocar acidentes de trânsito...é um incomodo andar com ela na rua...literalmente...Quem estiver interessado ou quem achar um exagero que confira...uma pista? Pesquise no AIFAIVE...eh eh eh...

Mas para mim ela é muito mais do que isso...é muito especial.

Somos amigas há muito tempo mas já estivemos meio azedas...interferências externas...e um dia zangámo-nos sim...e privámo-nos da companhia uma da outra durante anos...infantilidade, mas foi como foi...um tremendo e longo desperdício...

Não que ela não tivesse tentado aproximar-se mas eu tenho que reconhecer que fui orgulhosa, mais do que orgulho acho que foi a dificuldade que sinto em ultrapassar as minhas mágoas e decepções...leva-me tempo, muito tempo a digerir a infelicidade...
Até que ao entrar em 2007, estava a comemorar o Ano Novo no Reino Unido e influenciada pelas "new year resolutions" decidi que era tempo de reatar a relação...e mal cheguei comuniquei-lhe a minha decisão....ela era a prioridade de 2007 que já bastava de parvoices e sensibilidades!!!
E foi tão simples...desde então tem sido fantástico...temo-nos divertido imenso e não foi nada dificil restabelecer uma cumplicidade tão antiga... tudo com muita intensidade para recuperar o tempo perdido...desde ai tem sido uma festa permanente...

E tenho que confessar...se não fosse ela não teria ninguem a ler e a comentar o meu blogue...



PS. Além disso, tenho que reconhecer que cozinha optimamente! Isto porque quero que ela me continue a convidar, e é claro que tomei a sério a sua advertência!

O principezinho, por mim própria


O Principezinho é um hino à amizade e às relações que se constroem com paciência e autenticidade...e continuo a ser fã deste personagem fantástico que viaja com um bando de pássaros...e a quem a raposa contou o seu segredo:


" É muito simples:Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos"


Por isso, de tempos a tempos tenho necessidade destas verdades simples e lá volto a redescobrir e reler os diálogos.

Nunca achei que o livro fosse infantil, continúo a pensar é que as crianças têm mais facilidade em compreender e sentir as mensagens que nós crescidos e já tão esquecidos destas verdades fundamentais...mas que sabemos intemporais...

Quando a minha amiga de infância soube que ia ser avó, o meu neto passou de príncipezinho a príncipe, porque o dela era agora mais pequenino, e a vida é um continuo de sucessões...

Ainda no meio de todo o encantamento provocado pela noticia do bebé fomos comemorar o maravilhoso acontecimento com uma ida ao Teatro Politeama, em Lisboa juntamente com o principezinho exonerado e recem nomeado príncipe...

Mal nos sentámos nas cadeiras indicadas nos bilhetes, o Tiago confidenciou que já tinha visto a peça, que tinha ido com a escola, mas que não tinha dito nada porque achou que para a compreender precisava de voltar...sorri ao meu neto ...e respondi que sabia bem o que ele estava a dizer porque ainda sentia o mesmo... Há coisas que necessitamos sempre de relembrar para podermos compreender e viver melhor...há locais onde queremos regressar...

E foi desta forma que assinalámos assim a promessa do novo bebé tão desejado...

E ele chegou finalmente nos ultimos dias de um Outubro anormalmente quente para o receber...muita alegria e emoção... em volta do menino...e eu sem ideias para comprar uma prenda principesca...até que, ao passar por uma montra deparei-me com uma ovelhinha indefesa e inocente a precisar de uma caixa ... O próprio brinquedo era uma caixa de música linda! nada melhor para este novo Principezinho! levei-a logo, orgulhosa do meu achado...

E é lindo este menino...tão lindo que já tenho saudades dele...tantas!!! Espero sempre que a sua ovelhinha esteja a tocar para ele...

O principezinho, Antoine de Saint Exupery


...E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada. -
Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! ...

O principezinho, Antoine De Saint-Exupery

... Julgava-me muito rico por ter uma flor única no mundo e, afinal só tenho uma rosa vulgar...
Foi então que apareceu uma raposa .
- Olá, bom dia! disse a raposa.
- Olá, bom dia! - Respondeu delicadamente o princepezinho...
-Anda brincar comigo - pediu o princepezinho. Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou... Andas á procura de galinhas? (diz a raposa)
Não... Ando á procura de amigos. O que é que "cativar" quer dizer?
... Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
Laços?
Sim, laços - disse a raposa. - ...
Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo e eu serei para ti, única no mundo... Tenho uma vida terrivelmente monótona... Mas se tu me cativares, a minha vida fica cheia se Sol. Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? ... não me fazem lembrar de nada. É uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então quando eu estiver cativada por ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti...
-Só conhecemos as coisas que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora já não tem tempo para conhecer nada. Compram as coisas feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não tem amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E o que é preciso fazer? - Perguntou o princepezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada . A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar mais perto... Se vieres sempre ás quatro horas, ás três já eu começo a ser feliz...
Foi assim que o princepesinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar...
... Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
Depois acrescentou:
- Anda vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo.
O princepesinho lá foi... - vocês não são nada disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês... - não se pode morrer por vocês...
... A minha rosa sozinha. vale mais do que vocês todas juntar, porque foi a ela que eu reguei, que eu abriguei... Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, ás vezes calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para ao pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - vou-te contar o tal segredo. É muito simples: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos... Foi o tempo que tu perdes-te com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante. Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

Era uma vez


Claro que são o meu príncipe e princesa.


Que posso fazer? Não são lindos? Certamente os mais bonitos do mundo como na fábula de La Fontaine da águia e da coruja...por favor não coma os meus meninos... Eram estes os protagonistas...mas para o caso pouco interessa.

Sou muito orgulhosa da minha descendência que se vai desmultiplicando ...e é um privilégo ter uma nova oportunidade de voltar a ver o mundo com olhos de criança...

e brincar ao faz de conta...

fazer extraordinárias magias ao estalar de dedos... as coisas eclipsam-se ou aparecem de forma misteriosa e inacrediável...

viajar redescobrindo novas cidades nas cidades tão antigas....

e criar uma cumplicidade única com um amigo único!


E reviver a maternidade...recordar aqueles olhos de um azul purissimo que querem engolir o mundo e que às vezes também se revoltam com as regras ilógicas, absurdas e injustas dos grandes...a minha princesa era uma contestatária...defendia os direitos as crianças por onde quer que fosse...contestatária e reinvidicadora...e continua a ser... a princesa que agora é rainha...


Não consegui resistir e coloquei-os aqui...pode ser que me perdoem a indiscrição...São o meu neto e filha! São lindos, não são?

E ter vaidade nos nossos meninos não é vaidade ...é só amor!!!! Mesmo que fosse vaidade seria um pecado desculpavel e não merecedor de castigo ou punição...


Neste ponto o La Fontaine esteve mal...muito mal...devolvam os meninos à coruja...JÁ!







NOTA DE RODAPÉ - La Fontaine - A ÁGUIA E A CORUJA

A coruja encontrou a águia, e disse-lhe:
– O águia, se vires uns passarinhos muito lindos num ninho, com uns biquinhos muito bem feitos, olha lá, não mos comas, que são os meus filhos.
A águia prometeu-lhe que os não comia. Foi voando pelo bosque até que encontrou numa árvore um ninho de coruja e comeu as corujinhas. Quando a coruja chegou e viu que lhe tinham comigo os filhos, foi ter com a águia, muito aflita:
– O águia, tu foste falsa, porque prometeste que não me comias os meus filhinhos e mataste-mos todos!
Diz a águia:
– Eu encontrei umas corujas pequenas num ninho, todas depenadas, sem bico, e com os olhos tapados, e comi-as; ora, como tu me disseste que os teus filhos eram muito lindos e tinham os biquinhos bem feitos entendi que não eram esses.
– Pois eram esses mesmos! - disse a coruja.
– Pois então queixa-te de ti, que me enganaste com a tua vaidade.

Sabores & amizades


A comida é muito importante na nosa vida! Claro que sim...e está visto que adoro comer! Em boa companhia certamente, percorrendo sabores tradiconais, familiares, inesquéciveis, surpreendentes, sofisticados, requintados, inesperados... com conversas longas em que as palavas se misturam e saboreiam com os alimentos...porque tal como as palavras....Há sabores para todos os gostos, momentos e ocasiões!



Por isso é sempre festa em casa da Simin, há sempre um pretexto para celebrar...com palavras e sabores...

Oh adorava descrever o aroma e o gosto das "coteletes", do tadi do arroz persa, das finissimas espetadas de carne etc a excepção do alho em vinagre (esse vai ser o próximo nível) é tudo bom, muito bom mesmo...



Para mim, é sempe um prazer degustar a comida iraniana pelas mãos da minha amiga. É colorida, criativa, combinando muitos ingredientes e especiarias...É uma experiência única. Fica na memória em registos gustativos, olfactivos, visuais e emocionais porque o que mais aprecio é sempre o sabor a dádiva e a amizade incondicional...e é também isso a receita irainiana das especialidades únicas da minha querida Simin...para além da "mão"!!! Uma tentação! Irresistível! Mas não tentem copiar...eu já tentei...

Ecologia emocional


Todos sabemos o que é correcto...e como devemos agir perante esta ou aquela eventualidade...Se disser respeito à vida dos outros, especialmente dos nossos amigos, então ai, sabemos tanto que até escreverimos um tratado...felizmente que as editoras já publicam lixo suficiente para terem tempo com os nossos pensamentos e conselhos caseiros...para isso até temos os blogues...
Mas o que eu quero hoje escrever é sobre uma experiencia minha...perante uma dor. Não uma dor dilacerante...não, nada disso...Uma dor daquelas tão pequeninas que até custa a arrancar do coração...e persistem que tempo como aquele insignificante pó de areia que se enfia pelo olho numa tarde de nortada, nas praias atlânticas...ou quaiquer outras...
Foi assim. precisei de ir buscar umas coisas à garagem do meu "EX". Ele é um querido e eu também sou toda "lindinha" porque temos feito por isso, até nos temos sabido mimar e zangar, afastar e aproximar, num bailado que tem sido regido pela emoção mas também pela razão...E sim, somos amigos, amigos como poucos, rarissimos...amigos mesmo...e sim, não fomos foleiros na hora de partir, de dividir...e na hora de mágoa conseguimos não nos magoar...certamente um exemplo que nos orgulhamos...temos resistidos ao tempo, às relações ulteriores que às vezes olham esta amizade como uma ameaça que de facto não é...
Mas a estória é outra...fui à garagem da casa que agora é dele para ir buscar uns objectos que eu necessitava e que ele continua a guardar, certamente com infinita paciência....Já estamos separados há tanto tempo....Reparei que as minhas coisas não estavam como eu as tinha deixado e que havia um monte de papeis marmoreados, atravez de uma técnica a óleo, que tinhamos produzido num curso de reciclagem de papel. Este curso deixou recordações muito positivas na vida de 2 pessoas completamente diferentes que tentam desenvolver gostos comuns, para partilharem experiências e criarem memórias para o futuro...pontes entre dois corações que procurar acertar o ritmo...Para além do mais, para mim os papeis eram mesmo bonitos....e não os tinha trazido quando fiz a mudança por respeito, eram "nossos" e por isso dificeis de dividir de forma apressada...
Mas ali estavam, não só cheios das belíssimas manchas de óleo aleatórias mas também com marcas indesejáveis de bolor, cheios de humidade, espalhados, colados uns aos outros....destruidos e aparentemente irrecuperáveis. Sou uma pessoa de baques e claro o meu coração apertou-se, encolheu...não sei se deixou de bater...dobrei-me para recolhê-los...juntei-os, endireitei-os...alinhei-os e trouxe-os todos....não sabia para quê....nem porquê...
Quando cheguei a casa (que no Verão é em Buarcos) comecei a rasgar, a recortar, aproveitando os minusculos pedacinhos intactos...e eliminando as partes estragadas...depois disso comecei a colá-los num tampo de um armário que eu estava para deitar fora na primeira oportunidade (o que signfica literalmente, da proxima vez que tivesse um amigo que me ajudasse a carregá-lo para fora e casa)....
O resultado está à vista...um tampo colorido, vibrante, quente....e sinto-me orgulhosa...porque pelo menos desta vez agi da forma correcta, aproveitando os fragmentos de luz de um passado que já foi bonito e todo ele luminoso...resgatando as emoções mais genuinas e resistindo a uma tristeza, certamente comprensível mas inútil....para quê insistir em viver com o pó de areia no olho?
É isto o que chamo ecologia emocional...Desculpem a falta de modéstia...mas toda eu fico feliz quando entro em casa e vejo aquele patchwork de restos de felicidade....Bem, o meu "EX" nem sabe desta estória, mas um dia vou contar-lhe...é a nossa amizade que está ali retratada, mais um vez...e há relações que merecem um esforço de serem reinventadas...reciclando as emoções...

Le Jardin, Jacques Prevert

Des milliers et des milliers d années
Ne sauraient suffire
Pour dire
La petite seconde d éternité
Où tu m as embrassé
Où je t ai embrassé
Un moment dans la lumière de l hiver
Au Parc Montsouris à Paris
À Paris
Sur la terre
La terre qui est un astre.

Pour Toi Mon Amour, Jacques Prevert

Je suis alle au marche aux oiseaux
Et j ai achete des oiseaux
Pour toi
mon amour
Je suis alle au marche aux fleurs
Et j ai achete des fleurs
Pour toi
mon amour
Je suis alle au marche a la ferraille
Et j ai achete des chaines
De lourdes chaines
Pour toi
mon amour
Et puis je suis alle au marche aux esclaves
Et je t ai cherchee
Mais je ne t ai pas trouvee
mon amour

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Bibliotecas, museus e zoológicos


Adoro livros...quem me conhece sabe que tenho dificuldades em resistir...Necessito deles para desenvolver o meu trabalho, para alimentar a minha curiosidade meia infantil, para me proporcionar prazer, para adormecer sobretudo em noites de cansaço, para refúgio naqueles dias em que quero justamente estar em parte alguma, apenas a ler...procurando e construindo a minha própria identidade...As bibliotecas foram sempre um espaço de culto...

Aprecio todas as formas de arte, têm um impacto grande nas minhas emoções. Privilegio a pintura, a escultura e a fotografia...proporcionam momentos únicos de encantamento... e recordo uma tarde em Roma, na Galeria Nacional de Arte Moderna que estava vazia, numa grandiosa exposição de Paul Klee que me esmagou com as suas formas e cores, percorri a sala, sentei-me no chão, perante a ultima obra, em que o pequeno anjo anunciava a próximidade da morte...as lágrimas caiam sobre a minha exaustão emocional...perante uma vida tão repleta e a intuição da própria morte...

Claro que também gosto de animais, confesso que não de todos (tenho as minhas fobias a repteis, sejam iguanas ou cobras...) e apesar das alergias ao pêlo dos mamíferos domésticos (os únicos a que fiz testes) é claro que me deliciei durante a infância com a companhia dos mais variados amigos - desde o pequeno macaco domesticado em Nampula à série de cães e cadelas...A Fúria, a Patuxo, o Dompfaf etc. para além de presenças menos marcantes de bichos da seda, grilos, hamsters, pássaros, peixes, tartarugas e cágados. Sem esquecer os pirilampos! É tudo o que me lembro!

Parece tudo normal... pois é, mas não...ultimamente tenho uma crescente desconfiança aos carceres! Continuo a adorar arte mas a torcer o nariz ao conceito de "museu", a apreciar os livros e a resistir cada vez mais às bibliotecas que não são para os leitores, do mesmo modo que gosto de animais e se pudesse libertá-los ia dos seus cárceres zoológicos... mesmo aqueles que me causam pesadelos!

Mas não posso defender a libertação dos livros das biliotecas porque senão teria uma amigo a zangar-se comigo..e é claro...os livros são preciosos mas os amigos ainda são mais e acredito que ainda existam espaços sagrados....

Mas por favor, recordem-se que as bibliotecas são para pessoas apreciarem os livros e saborearem as palavras e não um mero armazem de lombadas e depósito de papel!!!...Deixem as pessoas viverem as bibliotecas!!!

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O ambiente de trabalho do meu computador é um jardim


O jardim de Miró é a imagem que escolhi para fundo do ambiente de trabalho do meu portatil...

Para mim é um quadro mágico que convida a imaginação a passear pelas flores e pássaros dum espaço encantado, dum jardim vibrante de cores e emoções...cheio de movimento e impregnado de uma alegria vital.

Tornou-se num sítio importante para mim porque o visito diariamente e muitas vezes ao dia...a cada click no ON que faço no computador...

Antes de ver quem quer que seja, o primeiro local que visito é este jardim que me transmite energia e força...e é aqui também que me despeço do dia, normalmente tarde com as tonalidades que podem colorir os sonhos...

E por isso este quadro é uma preciosidade que muito estimo, ao entrar feliz num novo dia, ao me despedir feliz dum dia que vai dar lugar a outro...

Mas nunca pensei que pudesse ser desadequado... Nem nunca tal me ocorrria...

Só que há uns tempos, um querido amigo a quem pedi ajuda para um problema informático, ficou chocado...não haveria pior escolha...os icons confundem-se com os múltiplos detalhes e perdem-se no cromatismo do quadro!!!

Fiquei a pensar...as opiniões dele são sempre valiosas e o que disse é lógico...mas mesmo assim sinto que me agrada ter que descobrir os icons dos meus ficheiros entre pétalas, estames, flores, flolhas e pássaros, parte integrante deste cenário vibrante...Parece-me bem...

R..., como é que um jardim pode ser um sitio desadequado?

Paris é sempre Paris


Paris é Paris...

Vale sempre a pena percorrer a pé, com os sentidos todos alerta, despertos, ávidos...

Paris é sempre surpreedente, tanto na grandiosidade dos monumentos, boulevards e jardins como no aconchego quente das brasseries e bistrots...numa pausa para un café et un croissant...

E se é certo que todos os sítios devem ser bons para namorar, porque quer queiram quer não os mais azedos, os desistentes, os moralistas, os impedernidos, os invejosos da felicidade alheia... o amor faz bem, dá saúde e faz crescer...mesmo assim há sitios e sítios... há locais melhores que outros...

Dizia eu, que todo os espaços são bons para as coisas boas, e o amor é a melhor de todas, não conheço nenhum sítio melhor que esta cidade de pontes, de praças, de boulevards, de recantos, de palácios, de museus, de alfarrabistas, de mercados, de viagens de barco no Seine, de surpresas permanentes que enternecem e cortam a respirção...em que a curiosidade cresce à medida que vamos descobrindo sempre novas facetas ou revisitando os lugares onde queremos voltar sempre.

Mas Paris também uma cidade de pessoas, pessoas que exibem a diferença de mundos que se tocam e cruzam, de pessoas que celebram de mãos-dadas o amor, como nos sussurros da Françoise Hardy "et la main dans la main..." e claro que gosto de ver pessoas felizes, apaixonadas, a beijarem-se, a entrarem uma pela outra... se houver sol, tanto melhor! Mas mesmo na chuva continua a ser bom, muito bom...


Paris é e será para mim a cidade do amor, mas mesmo sem romance à vista...Paris é Paris!

Ainda Vinicius de Moraes

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.
Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

Gostaria de ter sido eu a dizer mas foi Vinícius de Moraes

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos... Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre... Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados... Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo... Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida! A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos... Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!

Vinícius de Moraes, Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Até um dia meu anjo)

Vinícius de Moraes

Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

A outra e o outro trabalho


Tenho saudades dele...em férias, lembro o stress das manhãs apressadas no trânsito frenético, quando estou ociosa ao sol, farta da preguiça...nessas esplêndidas manhãs de luz sem objectivos, com que sonho todo o ano.

Workoolic pois...mas a realidade é que não sei quem seria se fosse outra coisa qualquer na vida... não seria esta concerteza, seria outra...a outra com outro trabalho!

E depois queixo-me circunstacialmente que trabalho demais...que tenho que me controlar e autodisciplinar para não exagerar, que é TOO MUCH!!! Em conversas politicamente correctas...gosto de me ouvir a falar assim...


Mas secretamente desejo ter sempre muito trabalho, uma vida preenchida com desafios, uma longa vida profissional que me traga novidades sempre renovadas...e obrigue a crescer sempre e envelhecer muito devagarinho...apenas o inevitável...sem me aperceber totamente que o tempo passa, passa tão rápido!!!


Gosto assim, é claro.E conheço pessoas, aprendo coisas, descubro outras, numa troca incessante de conhecimentos, experiências sempre com muitas emoções, cheias de afectos e tanto divertimento! E por isso gosto dele e gosto que goste de mim...


E depois...Opps... lá estou com problemas de agenda...outra vez? Não! Sim. O meu instinto é querer fazer, ir a todas, gerir os dias ao sabor de pressas e acelerar daqui para ali, um andarilho permanente, com entusiasmo..muito entusiasmo...mesmo que às vezes me queixe...porque não há relações perfeitas e fica bem lamentarmo-nos um pouco.


É claro que não seria eu, se ele não fosse este, se fosse outro. O meu trabaho e eu. Eu e o meu trabalho. Uma relação feliz...Espero que ele continue a procurar-me...a preferir-me...e eu a acenar-lhe...


Ei!!! Estou aqui...

Manda-me um five!

Há pouco tempo eramos donas de casa, não donas das casas...carinhosas mães, deliciosas esposas, esmeradas cozinheiras, impecáveis lavadeiras, cuidadosas brunideiras, amorosas guardiãs do lar...incansáveis!

Depois passamos a ser profissionais...de inicio talvez timidamente, fazendo incursões num território estranho, muitas vezes exclusivamente masculino... e pouco a pouco, passo a passo, conquistando o trabalho, nem sempre uma carreira...seguras!

Hoje estamos aqui no espaço cibernautico com múltiplas personalidades virtuais...emails, Hi5, comunidades de prática, chats, clubes de amizade, blogs...sempre surfando a net, na crista da onda tecnológica...frenéticas!

Nem a wonder woman foi tão longe...E que é feito dela, da supermulher? Pesquisei a net e fiquei chocada...não lhe encontrei nenhum blog nem a encontrei nos perfis do hi5...não deve ter existência, por isso...Ou então deve estar envergonhada, em casa, gorda, a tratar do superhomem e dos supermeninos!!! Os seus poderes tornaram-se insignificantes...agora só mesmo a reconversão profissional num programa de novas oportunidades...Fiquei preocupada...por solidariedade feminina, que eu acho que ela não merece grande respeito...foi um péssimo role model! Agora amarga!
Vá lá manda-me um five!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Joan Baez, Diamonds and Rust - Live, 1975

Baez e BobDylan uma relação de Diamantes e ferrugem...inesquécivel
Joan Baez, Diamonds and Rust - Live, 1975

Jacques Brel - Ne Me Quittes Pas

Ne me quitte pas


Ne me quitte pas
Il faut oublier

Tout peut s'oublier

Qui s'enfuit déjà

Oublier le temps

Des malentendus

Et le temps perdu

A savoir comment

Oublier ces heures

Qui tuaient parfois

A coups de pourquoi

Le coeur du bonheur

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


Moi je t'offrirai

Des perles de pluie

Venues de pays

Où il ne pleut pas

Je creuserai la terre

Jusqu'après ma mort

Pour couvrir ton corps

D'or et de lumière

Je ferai un domaine

Où l'amour sera roi

Où l'amour sera loi

Où tu seras reine

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Je t'inventerai

Des mots insensés

Que tu comprendras

Je te parlerai

De ces amants-là

Qui ont vue deux fois

Leurs coeurs s'embraser

Je te raconterai

L'histoire de ce roi

Mort de n'avoir pas

Pu te rencontrer

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
On a vu souvent

Rejaillir le feu

De l'ancien volcan

Qu'on croyait trop vieux

Il est paraît-il

Des terres brûlées

Donnant plus de blé

Qu'un meilleur avril

Et quand vient le soir

Pour qu'un ciel flamboie

Le rouge et le noir

Ne s'épousent-ils pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Je ne vais plus pleurer

Je ne vais plus parler

Je me cacherai là

A te regarder

Danser et sourire

Et à t'écouter

Chanter et puis rire

Laisse-moi devenir

L'ombre de ton ombre

L'ombre de ta main

L'ombre de ton chien

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Apaga-me os olhos, Rainer Marie Rilke

Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.

Rilke, in Livro das Horas

Foi assim


Tentativas artísticas

video

Foi uma esperiência de grupo fantástica...isso foi o melhor que conseguimos!!!

Recortámos pedaços e trouxemos...um bocado de cada um e nós...

Quem me traz o meu fantasma?


Estou a ouvir Abrunhosa e gosto, gosto muito... Adoro a letra, mas não concordo
Aquele era o tempo, em que as mãos se fechavam,
e nas luzes brihantes, as palavras voavam
e eu via que o céu, me nascia do vento
e a ursa maior, eram ferros acesos
marinheiros perdidos, em portos distantes
em bares escondidos, em sonhos gigantes
e a cidade vazia, a dar corpo ao asfalto
e alguém me pedia, que cantasse mais alto
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada
Quem me diz onde é a estrada?
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá
Ninguém fala em fantasmas...
porque os fantasmas são discretos,
não querem nada com jornais e TV
não aparecem nas festas
nem divulgam números de telemóvel...
Acho que é por não terem consultores de imagem
mas eu também não!!!
Por isso compreendo bem.
Os fantasmas são sempre interessantes
mesmo que não queiram
encerram segredos e mistérios...
em conclusão, fariasmos melhor se cuidassemos dos nossos fantasmas
E cada um devia possuir pelo menos um!
Aparecem ...UHHH... Ai que medo!!!
E desvanecem-se... contra a realidade, Oh que pena!!!

São cuidadosos, gostam de ter privacidade, XIUUUUU!!!!
É preciso repeitar, talvez o fantasma não resista à cidade, talvez seja um fantasma de verão, em férias...
Ninguém liga aos fantasmas, e só o Abrunhosa é que lhes dedica uma canção, eu gosto deles. Isto é nonsense mas é mesmo assim e por isso pedir-lhe-ia que cantasse mais alto...
De que serve ter a chave
se a porta está aberta
Quem me traz o meu fantasma?
Quem me liberta esta espada?
Quem me indica onde é a entrada?

As montanhas são azuis


Só custou a chegar...mas custou mesmo.


Mas era previsível...Sem indicações precisas...e "quintas da cerca"...ele há muitas, está bom de ver!!!


O stress de chegar rápido, de estar já tão atrasada, ia-se diluindo a cada palmo percorrido, dando lugar à contemplação de paisagens imensas, a partir de estradas de terra batida...
perdida claro,
sem mapa evidentemente,
sem rede de telemovel, já se sabe!!!

A vontde era parar...
e que se lixe o resto...
os compromissos,
as horas,
os atrasos,
os outros à espera...
inventar uma desculpa...
viver o momento...
Não parei, mas continuei a conduzir sem ansiedade, na estrada serpenteada, ...sem perder de vista o recorte das montanhas, companhia fiel nas curvas e contra curvas

É que as montanhas ao longe são azuis e há lugares onde custa a chegar e mais custa a deixar...por isso regressam connosco!

Era uma vez uma arvore


As propostas sucediam-se à medida que atingiamos os objectivos: Primeiro reclamavamos e depois mãos à obra...como meninos obedientes e adultos conformados...

Atenção que isto é uma formação séria...E é mesmo, sim senhor...porque nos inspira, envolve e transforma...Mudanças da metamorfose e de metáfora...Somos nós o produto desta formação, as ditas mudanças (da metamorfose e de metáfora) sentem-se na pele, na carne, no osso...Transformar sensações em conceitos e destes partir para imagens e acabarmos num caligrama!!! Somos nós o dito cujo caligrama.
Unidos numa viagem de percursos incertos e destinos desconhecidos...assim nos encontramos todos, entre risos, incertezas e expressões de admiração...surpreendendo e surpreendendo-nos, à medida que iamos perdendo o medo de olhar e ver, de ver e sentir, de sentir e pensar, de pensar e expressar, e sobretudo de arriscar muitos riscos, formas, manchas, texturas e gargalhadas... de reforçar laços invisiveis entre todos...
Construir e descontruir, fazer e desfazer, brincar com fragmentos e o efémero... Somos adultos, maravilhosos e tudo o mais e de repente, sentimo-nos intimidados por um papel branco, vazio mas depois a parada foi mais elevada...tinhamos que fazer uma instalação numa árvore....

Uma instalação? Nós? E a parada era alta porque desta vez eramos nós a sentirmo-nos progressivamente desinstalados...

domingo, 16 de setembro de 2007

Por falar em enjoar


Apesar de sermos um grupo de adultos sérios, informados e muitos de entre nós estarem ligados a actividades artisticas e todos certamente apreciarmos arte, a verdade é que reagiamos de forma timida, meio assustados perante a frieza do enorme papel de cenário e a atracção pelas cores atrevidas... do cromatismo timbrico!!! Cromatismo quê? Não me posso esquecer...heraldico, local...

Se tivesse pensado antecipadamente na minha paticipação teria expectativas quanto a encontrar respostas rápidas, identificar acertadamente os estilos, reconhecer prontamente autores e quanto à capacidade de questionar as minhas próprias certezas...

Que grande engano! Nada disso aconteceu...não foi preciso abanar muito para toda uma construção de conceitos e experiências se desmoronar e me deixar ali muito mais pequenina no meio dos destroços com um mundo vastissímo à frente...enorme e desconhecido! Um mundo para me aventurar! Viagens que quero fazer! Só me resta um pensamento! E vá lá, é positico...Ainda bem que não enjoo!!!

Experiências da Formação Tecnologica e Artistica


A propósito de uma mensagem que escrevi para um amigo, sobre a formação em que participei e que decorreu em regime residencial numa quinta em Tábua, acabei por reflectir e registar algumas impressões sobre esta experiência que lhe defini num email como intensiva e absorvente...

Mais uma vez, dei-me conta de um aspecto muito interessante e frequente, na formação de adultos, um fenómeno colectivo de regressão que nos faz a todos, comportar como terriveis meninos traquinas...começa com uns sinais mal perceptiveis, aparentemente inofensivos, e vai-se alastrando num perigoso contágio e com agravamento da sintomatologia.

A nossa animadora esteve bem, não se deixou intimidar e geriu bem a nossa turbulência conduzindo-nos através de inúmeras desafios: realizamos muitas experiencias, mil aventuras...
Estavamos visivelmente satisfeitos mas isso não nos impedia de protestar da dificuldade das tarefas, reclamando por um intervalo, queixando-nos do cansaço...à medida que trocavamos olhares cumplices...e sorriamos, de cada concessão obtida...

Sentimo-nos todos tão infantis, era essa aliás a natureza da felicidade que comungávamos!!!