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Matisse

Maria&Matilde
sábado, 4 de julho de 2009
SANTO E SENHA
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser Uma estrela no chão.
[Miguel Torga]
domingo, 21 de junho de 2009
Sentido
De repente não tenho tempo para nada...vivo cercada de livros e fotocopias, de datas para apresentar trabalhos, de defesa, de exames...à medida que os dias são sugados...e me apercebo que estamos a acabar o mês ou a começar um novo semestre
Os meus amigos sentem-se abandonados ou talvez já nem sintam, cansados de ouvir as mesmas razões que acham que são desculpas...
Faz sentido? Pois é, e ainda falta muito mais...
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
A minha querida tia

sexta-feira, 23 de maio de 2008
Aceita-me assim

que o meu silêncio
encerre todas as palavras...
e que na minha solidão
vibrem amores ausentes,
distantes... não menos presentes
nesta emoção sem razão
Aceita,
que o rosto mude de expressão
como a secura do deserto
se transforme em maré...
na certeza de que os astros estáticos
são afinal planetas em movimento
numa viagem incessante
Aceita,
que goste de ti
como a noite ama o dia...
e o sol promete a lua
num bailado sem intenção,
em que o caos afinal é ordem
da cósmica coreografia
Aceita,
que também te queira assim
sem algemas ou correntes
e nada poder agarrar,
ao cativero me negar
mesmo que seja a espiral
dum remoinho do mar
Aceita,
Aceita,
que escolha as estrelas
para confessar o que sinto
a verdade que desvendo
e a mentira que evito
que vou amar para sempre
é coisa que não te prometo
Aceita,
Get yourself a life!

A ilusão de ter, de possuir, não te dá poder… e o voyeurismo é uma cortina entre ti e a vida, um mirador sobre uma paisagem deserta, um desfiladeiro vertiginoso, uma janela para um mundo que não existe, que nunca te pode trazer o que não te pertence ou devolver quem partiu...
De nada serve repetires palavras que não nasceram para a tua boca, porque o sotaque te denuncia...e essa avidez por saberes novidades de quem não te dá noticias não te mantém informada...
A curiosidade mata …espreitar pela fechadura… não é viver…e vida…há só uma e não reside atrás da porta!!! Por isso …Get yourself a life!
http://mariopinhal.blogspot.com/
Mesmassim
mesmassim cresceu
mesmassim é maior que quando nasceu
mesmassim é um espaço e é só teu
mesmassim é o lugar e o sentir
mesmassim é onde te podemos encontrar
mesmassim é para te ouvirme
smassim és tu a despertarés tua fugir
a chegar e a partir
a sofrera chorar e a sorrir
a amar
a viver
mesmassim é mesmassim
Desbloguear
-Bora ai, vamos jantar, apanha-me, dá-me um toque que eu desço…
Tocou. Chamei o elevador e já no hall de entrada reconheço-o de costas, na contraluz… espera-me lá fora…e foi um abraço, um único abraço onde o tempo que passou é recuperado e as distâncias transpostas…um abraço assim, sem tamanho…em que o presente se reconcilia com o passado…
-O que queres comer?
Adoro comer…mas o que quero mesmo é estar com o Mário, conversar sem rumo…e apreciar a forma sensata como sabe envelhecer lentamente, quase sem deixar sinais…é um segredo, penso…é genético, sem dúvida…mas não comento …
E faço as contas à vida…ainda há pouco éramos crianças e demorava tanto a ser adolescente e agora estamos quase com 50!!! mas também não comento, fico a pensar para onde foram tantos sonhos…para onde correram os anos...
Vamos falando e escutando enquanto prosseguimos com as nossas tarefas gastronómicas….um bacalhau à casa, que neste caso é à palácio…um tinto chambré, que o empregado se encarrega de despejar nos copos…para que nunca se esvaziem completamente…e avançamos com a conversa e com o nosso bacalhau…como se fossemos donos do tempo…
E o Mário queixou-se…tinha uma reclamação:
-Não escreves no blog…abandonaste-o…
E eu senti que era como se o meu amigo me visitasse e eu nunca estivesse em casa para lhe abrir a porta, o que era imperdoável mas mesmo assim tentei explicar…
Disse-lhe que não tenho escrito…porque estou noutra fase… E estou…
Não me apetece ficar em casa a escrever…apetece-me mais ler, apanhar sol numa esplanada deserta em pleno areal, num local que só eu conheço, e que ainda não abriu as portas, porque se reserva para a enchente de Verão, onde posso passar uma tarde sem interrupções, sem as perguntas dos empregados, sem o movimento dos clientes, sem os cumprimentos ou conversas banais dos vagamente conhecidos …
Apetece-me desencaminhar um amigo para o teatro e depois vaguear pelo Bairro Alto para petiscar fora de horas…à volta do enredo da peça ou de outro episódio qualquer…
Apetece-me estar com a minha amiga de sempre a conversar pela noite dentro e poder chorar e rir..., rir e chorar....sem que a minha sanidade mental esteja a ser avaliada...
Apetece-me estar numa esplanada à beira rio, no meio de um vaivém de pessoas e onde acabo sempre por ter encontros improváveis com amigos de longa data, que seria difícil encontrar em qualquer outro sitio e de quem já só me lembro muito de vez em quando…
Apetece-me estar com o meu grupo de amigas “encalhadas” todas tão divertidas, bonitas e completamente disponíveis e rirmos com as observações tipicamente femininas….como se o mundo fosse nosso e andássemos só a disfarçar que "...não é bem assim…"
Apetece-me ir jantar fora, em grupos, às vezes somos tantos, outras vezes nem por isso, recuperar as pessoas com quem não contactei durante anos, sem razão nenhuma para além da azafama que nos vai mantendo a todos tão ocupados e perigosamente distraídos…ate que um dia acordamos e dizemos: “O quê? Já vou fazer estes anos todos?!” refazendo as contas, como uma criança que tem a certeza de se ter enganado nos cálculos…
Mas escrever não...não me apetece…
Expliquei-lhe que comigo é um pouco assim, por fases e marés… que agora a lua, que por acaso até está cheia, lindíssima, não me tem iluminado as palavras e por isso elas não têm saído lá do escuro alçapão onde se escondem tão arrumadas…não tem acontecido ter coisas para dizer, ou comentar ou inventar… as palavras não me procuram e eu não as encontro…
Mas o Mário continuou com cara de quem insiste em tocar à campainha e permanecer ali, imóvel na esperança de ouvir passos e uma pergunta vinda do interior “quem é?” .
Sinto que o desiludo…e que os nossos blogs são também pontes de amizade e sei que sempre que posso vou espreitar os seus poemas, textos e fotografias…porque é uma forma de matar as saudades e de ter o conforto da sua presença, mesmo que apenas virtual…
E porque a seguir ao domingo vem uma semana inteira de trabalho não ficamos por ali perdidos em conversa, regressei cedo ao hotel e deitei-me logo…com a sensação de ter deixado o Mário na porta intransponível da minha casa vazia…todo este tempo…
Hoje acordei sem vontade de ir trabalhar…porque na minha cabeça pequeníssimas palavras dançavam, como se reclamassem espaço no meu blog…
Há vozes que fazem eco…e nos inspiram…
-Olha Mário, quando quiseres já podes vir… voltei a casa…Vá lá….já agora deixa um comment!!!
sábado, 3 de maio de 2008
Jacques Prevert, Pour toi mon amour
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour
Jacques Prevert, Sables mouvants
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Et toi
Comme une algue doucement caressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Mais dans tes yeux entrouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Rûdakî
Não temos de morrer um dia?
Por muito que se puxe e estenda o fio
não chegará um dia ao seu limite?
quer vivas infeliz e na miséria
ou mesmo seguro e afortunado,
tudo se equivale no dia de morrermos.
Quer a sorte nada tenha te oferecido
quer, deste mundo, mil terras te haja dado,
tanto faz no dia em que morrermos.
Fortuna e infortúnio: apenas sonho!
e o sonho só vale como sonho,
não há diferença no dia de morrermos.
Omar Kayyâm
Sê, por isso, hoje feliz até mais não!
Pega no copo, bebe e senta-te ao luar.,
amanhã, talvez a lua te procure em vão.
Sa'adi
essa é a base da própria criação:
Um sofre todos sofrem dano.
se és indiferente como é que és humano?
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
splendor in the grass,
domingo, 13 de janeiro de 2008
Sand and stone

The on who got slapped was hurt, but without saying anything, wrot in the sand:" Today my best friend slapped me in the face."
They kept on walking until they found an oasis where they decied to take a bath. The one had been slapped got stuck in the mire! And started drowning, but the friend saved him.
After he recovered from the near drowning, he wrote on a stone: "Today my best friend saved my life. The friend who had slapped and saved his best fried asked him "After I hurt you, you wrote inthe sand and now, you write on a stone, why?"
The friend replied "When someone hurts us we should write it down in sand, where winds of forgivenes can erase it away. But, when someone does something good for us, we must engrave it in stone where no wind can ever erase it."
Learn how to carve you hurts in the dand and your benefits in stone. They say it takes a minute to find a special person, an hour to appreciate them, a day to love them, bu then, an entire life to forget them.
Take the time to live! Do not value the things you have in your life, but value who you have in your life!"
sábado, 12 de janeiro de 2008
That's it
an hour to like someone, and a day to love someone,
but it takes a lifetime to forget someone".
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Prenda de Natal
Recebi um email em que o assunto era "Prenda de Natal"...claro que vindo de quem vinha...seria sempre uma prenda, o "Natal" tinha apenas a ver com a época festiva...
Fiquei curiosa mas no corpo da mensagem havia uma exigência que me obrigava a refrear o impulso de abrir o attachment...
É que tinha que fazer o download e antes de visionar era-me solicitado que fizesse uma chamada via Skipe para o Mário http://mariopinhal.blogspot.com/ porque ele exigia "presenciar" ao "abrir da prenda"...
Pareceu-me justo e estas condições de quem oferece têm que ser respeitadas por quem recebe os mimos ...
E assim fiz...a prenda era um vídeo fantástico da minha infância em Moçambique, um vídeo também desta amizade de sempre que já descrevi em É mesmassim - o meu blogue e eu
Evidentemente que o Mário presenciou o espanto e a comoção partilhada lá em casa, porque todos quiseram ver o video dos meus primeiros anos de vida, em terra africana, no meio de cachos de banana, obstinada em ir para o lago...
Obrigada príncipe!
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
A capuccino, please
Chega a minha vez...A capuccino, please... and a browny,e aponto não vá ele servir-me outra coisa.
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
X-Mas
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
domingo, 23 de dezembro de 2007
O Natal não é todos os dias

sábado, 22 de dezembro de 2007
Fronteiras

Teclavam de forma compulsiva, tecendo uma enorme rede de cumplicidades e segredos nos seus longos encontros on-line, não obstante os fusos horários, permaneciam horas a fio, esquecendo o tempo real, o sono, o lazer e às vezes o trabalho... e demoravam eternidades para se despedirem como se faltasse sempre mais uma palavra, um pensamento, um último adeus... que esperavam que fosse afinal um até breve...
Criaram diminutivos e enereços de MSN exclusivos para eles...trocaram fotos para encurtar as distâncias, viajaram pelas respectivas vidas, como não o fariam se tivessem sido apresentados por um amigo comum...
E um dia souberam que iriam coincidir por umas horas em Paris, ambos em viagem profissional...mesmo que os voos, ela a chegar e ele de regresso, não permitissem mais que um breve encontro no aéroporto, a ambos pareceu a ocasião fantástica e a cidade a mais indicada...
E quando o momento chegou tudo aconteceu da mesma forma natural, ambos se reconheceram entre a multidão, abraçaram longamente, como fariam velhos amigos, de imediato começaram a falar com a mesma familiaridade com que costumavam teclar…e as horas de que dispunham passaram, parecendo breves instantes, entre a chegada e a partida …
Desde então, quando se encontram on-line, sentem uma certa estranheza…uma vez transposta a perigosa fronteira do mundo virtual…o peso das respectivas vidas materilizou-se e passou a ser mais dificil sonhar...
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Paisagem transmontana

O céu está limpo, num azul que se estende sem imperfeições, o sol branco impera, intenso, espalhando uma luz fria...
O dia despertou coberto com um manto de geada… a berma, os campos, a terra, as arvores estão envolvidos numa finíssima camada de gelo… Ao longe um olival parece um rebanho de ovelhas por tosquiar, imóveis, certinhas, alinhadas, disciplinadas… e sorrio, é como se a natureza tivesse o seu lado infantil de criança, e acordado com vontade de refazer a pintura do dia anterior, passando um lápis de cera branco sobre toda a superfície da folha…farto dos próprios traços altera a paisagem, joga com a percepção, experimenta novas sensações, recria e diverte-se …
Ligo a chauffagem, aumento o som do rádio e as noticias confirmam uma onda de frio…”Portugal treme”, estamos em Dezembro! A temperatura é negativa…talvez seja um privilégio ainda termos Inverno, Inverno com frio, geada e até nevões…Imagino toda esta paisagem submersa em neve…sempre com um sol vigilante, generoso em luz sobre um sonho branco, limpo, sem mácula…
Conduzo por cima de um massa espessa de nevoeiro, que parece querer desprender-se do solo…e que me cria a estanha ilusão de estar a sobrevoar as nuvens…tenho vontade de acelerar…
Observo tudo com encanto. Os montes ao longe ameaçam ser o limite do mundo… de repente a paisagem começa a acinzentar-se e com surpresa, após uma curva sou engolida por uma nuvem de nevoeiro, espessa, como um véu que retém a luz, a estrada funde-se com o branco que invade tudo, ligo faróis de nevoeiro, desacelero a velocidade… distingo apenas os faróis na direcção contrária…
A paisagem perde os contornos, os montes tornam-se irreais e eu continuo a conduzir, tentando adivinhar o caminho que ainda ontem estava ali…
Viagem a trás-os-montes I
Não vou alongar-me com a generosidade destas gentes, que se ofendem se as visitas não aceitam as honras e recusam o petisco que é colocado prontamente na mesa, sobre as toalhas de linho grosseiro…Nem me quero perder em detalhes com a gastronomia única, as sopas de sarrabulho e toda a espécie de enchidos…
Mesmo quando venho em trabalho consigo sempre organizar encontros com amigos tão antigos, primos e parentes mais afastados, jantares e caminhadas a pé, saídas e longas conversas…tudo bem gerido para não melindrar ninguém e poder corrê-los a todos…um petisco aqui, um copo ali…sem exagerar muito porque ainda tenho que passar acolá…
O meu horário permite-me uma imensa liberdade…passear durante o dia e trabalhar em pós laboral…não é sempre assim, mas é um privilégio que me vou concedendo nas épocas em que ando mais condescendente comigo mesma e me repito para aliviar a culpa “Eu mereço” e é claro que mereço muito!
Mas esta viagem tem outras implicações, outros objectivos…é umas reunião de pessoas que eram uma família e passaram a ser herdeiros. Estamos todos aqui para dividir o que ainda não foi vandalisado de uma casa que teve dias felizes mas que agora tem os dias contados…vimos aqui vasculhar os cantos para resgatar memórias alegres, como se os objectos nos trouxessem de volta as horas, os dias e os anos que se consumiram tão silenciosamente…na esperança de encontrar atrás de uma porta os risos perdidos e as gargalhadas soltas…
Levaremos objectos para casa, sem saber porque não temos coragem para os abandonar ali…onde sempre pertenceram…onde talvez devessem para sempre permanecer…para aliviar a culpa em assistirmos calados à demolição da casa que foi o símbolo de uma família…
Viagem a trás-os-montes II
Na minha infância, o estado das nossas estradas, estreitas, sinuosas, esburacadas, sem bermas, fazia do pais, um pais enorme…maior ainda se tivéssemos o azar de seguir atrás de um camião que não facilitasse uma ultrapassagem…gigantesco ao olhar de crianças que contavam os minutos, ansiosas por chegar a um destino…
-Ainda falta muito para chegar?- repetíamos incessantemente…
Lembro-me das horas intermináveis, curva contra –curva, numa viagem medonha, via o serpenteado da serra do Marão, onde muitos perigos espreitavam na nossa imaginação fértil de criança…malfeitores escondidos, o gelo, as escarpas, as ultrapassagens, uma avaria, o cair da noite, reflectindo o receio dos adultos e recriando o suspense de uma cena de um filme passado na TV, a preto e branco, na altura…
Era assim, numa constante impaciência, até que o embalar das curvas e o cansaço da viagem, nos fizesse adormecer…para só acordarmos estremunhados com a excitação da chegada, a vista da casa toda iluminada, o alarido dos beijos e o aperto dos abraços dos avós, e despertar com os olhos esbugalhados com as prendas embrulhadas e toda as surpresas preparadas com minúcia, por quem muito anseia a chegada dos netos e lhes sabe adivinhar os desejos mais secretos…
E depois entravamos num mundo de sensações em que tudo é perfeito… o cheiro da comida preferida, as guloseimas e os mimos todos, o som do crepitar da lenha na lareira, o mistério das brasas incandescentes e o fascínio das chamas…
Permanecíamos a pé até cairmos exaustos de sono entre os lençóis frescos de linho, sob o calor pesado dos cobertores de papa enquanto a avó nos ajudava a proferir a oração da noite
“Menino Jesus,
dá-me a tua mão,
que sou pequenina
e caio ao chão”
Recebíamos um beijo na testa …“Dorme bem, amor”…e a luz apagava-se…
Por isso quando aqui venho reencontro sempre a minha infância e o mundo mágico que só os avós e os netos conhecem…
Estórias reais de plebeus I
A Maria era “criada de servir”, como na altura se designava, em casa dos meus avós maternos numa vila transmontana, que agora é cidade…
Servir de criada, era um destino frequente para as raparigas de famílias pobres, incapazes de prover o sustento dos filhos, quanto mais, mandá-los para a escola…e ainda por cima sendo uma rapariga !!!
Não sei se a Maria chegou a frequentar a escola, provavelmente não, nunca lhe perguntei por um certo pudor e por receio de reabrir o que pode ser uma ferida antiga… sei que é analfabeta…mas sabe fazer contas e até tem orgulho no calculo mental, ninguém a engana nos trocos… nem as moças com estudos que estão nas caixas registadoras do supermercado onde se abastece…
A mãe também servira em casa dos meus avós e foi lá que se dirigiu para confiar a filha porque era grande a prole e difíceis os tempos…
Chegou franzina, com um estômago pequenino, ainda meia criança, descalça e com a roupa remendada…lembra-se de lhe terem arranjado logo uma farda e avental, limpos, passados, mas o verdadeiro luxo foram os primeiros sapatos, que nunca há-de esquecer…no início não se acomodavam os pés, aleijavam-lhe os dedos…depois lá se foram habituando…
Ficou inicialmente sem ordenado, para aprender, o pouco trabalho e vontade em troca do seu sustento e depois, logo se veria, conforme a rapariga se “ajeitasse” assim ajustariam. E lá ficou em regime de internato, mesa, cama e roupa lavada, a partilhar o quarto da torre com as outras criadas… aos cuidados da minha avó materna.
A verdade é que a Maria se ajeitou, e por lá se acabou de criar, fez-se uma boa criada e em pouco tempo teve direito a ordenado “pôs” corpo e tornou-se também mulher…
Estórias reais de plebeus II
Eu teria então uns 3 ou 4 anos e acho que ela ainda me vê com os mesmos olhos quando me trata “por menina” …alheia ao facto de eu já não usar transas…
Imagino a aventura para uma jovem que nunca tinha saído da terra…viajar da vila transmontana para a “cidade dos doutores” , os medos da viagem interminável e os receios do desconhecido que a esperava na cidade…
E a Maria ficou um tempo a servir-nos…e afeiçoou-se a nós e regressou à terra para casar e fomos tendo noticias à medida que os filhos foram nascendo e crescendo…e sempre que lá íamos de férias, lá vinha ela, a pé da aldeia para mostrar com orgulho a sua descendência e matar saudades dos outros meninos que servira tão longe e que deixara ainda tão pequeninos…
Aparentemente tudo corria bem, a minha mãe manteve sempre um carinho muito especial e alegrava-se com as notícias que lhe davam conta que a Maria estava a construir casa, que os filhos estavam na escola, que o marido era um electricista com trabalho e que a família prosperava….
Estórias reais de plebeus III
Baptizá-la nesta idade pode parecer excesso de discrição porque a estória dela não é segredo para ninguém que a conhece…nos meios pequenos não existem segredos…estes são uma conquista das sociedades anónimas, em que nos tornámos…nas aldeias, mesmo que não se queira, é tudo partilhado, aberta ou veladamente, mas sempre comungado..
A Maria sempre se comportou como se de um segredo só seu se tratasse, nunca tendo comentado o assunto, feito uma queixa, deixado cair uma inconfidência muito menos que se abeirassem dela com perguntas ou insinuações e manteve-se alheia aos rumores…mas isso não impediu que se soubesse e que toda a gente comentasse, um novelo de pormenores à volta do seu drama…
De repente constou que o marido abusava sexualmente da filha mais velha, que a Maria descobriu o incesto e que no meio da sua dor inconsolável tentou repetidas vezes suicidar-se…por isso esteve internada por diversas ocasiões, recusava-se a viver, não tinha vontade para nada…
No meio de seu desatino não pode impedir o marido de fazer dividas que os levariam a perder a casa e todos os bens que tinham amealhado…e por isso, para além da família destroçada, sucedeu-se a ruína completa e o ver-se de um dia para outro com os filhos ainda por criar e sem um tecto…
O marido abandona-a, vai para França…ela nunca mais o voltará a ver, leva a filha mais velha com ele, por isso acaba por perder os dois…
A sua boca fechou-se, nunca mais falaria do marido…nunca comentaria o sucedido, carregou-se de negro…
Estórias reais de plebeus IV
O marido foi condenado pela aldeia inteira, nas conversas de boca a boca, à saída da missa…nos intervalos da lavoura, onde fosse...
”Nunca se viu uma coisa assim!”
“Onde é que este mundo irá parar?”
“O que ele precisava era de umas boas chibatadas”
Não havia memória de um tamanho escândalo, muito menos num local onde normalmente não se passa nada, nem se espera que venha a acontecer… de repente havia motivo de conversa e indignação.
A Maria ficou com os filhos mais novos…a solidariedade e a esmola de alguns permitiram que a família desfeita fosse abrigada num barraco sem condições, a ajuda dos vizinhos chegou na assistência às crianças providenciando alimentação durante os períodos de incapacidade, convalescença e internamento da mãe…
Aos poucos a Maria foi recuperando, era seguida nas consultas de psiquiatria, tomava os medicamentos prescritos pela doutora e foi gradualmente arranjado horas como mulher a dias em casa de umas senhoras…
Passou a dedicar todo o seu tempo e energia ao trabalho e aos filhos mais novos…melhorou as condições do seu casebre e continuou a mandá-los para a escola para aprender …tudo na maior pobreza…
O marido não voltaria à aldeia, ficou-se por terras francesas, onde lhe eram conhecidas mulheres e uma vida de gastos e excessos…chegavam os ecos aos seus ouvidos mas a Maria não comentava as noticias…
Estórias reais de plebeus V
E depois vieram os netos, que à força de os ter tão pouco tempo, beija as fotografias que chegam em envelopes carimbados com nomes dos arredores de Lisboa…
No Verão passado, a Maria teve conhecimento que o marido tinha morrido, a mulher com quem vivia tinha-o abandonado durante a doença prolongada e ninguém reclamava o corpo e por isso ela responsabilizou-se pelas despesas, tendo gasto todas as economias para mandar vir o corpo de França para lhe fazer o funeral…
Fez-se o enterro no cemitério da aldeia com missa, não havia ninguém a chorar, excepto a Maria, que se contorcia em dores, convulsionava em soluços, e se desfazia em imensos gritos de dor quando "o corpo baixou à terra"…foi a comoção geral…a aldeia ainda estava cheia de rancor, não tinha esquecido as ofensas… foi a estupefacção dos presentes...que ainda hoje comentam o espanto...
Depois do enterro voltou para casa em silêncio…e no dia seguinte retirou o luto em que estava encerrada há mais de duas décadas...
Quando a vi, dei-lhe o pêsames e ela abraçou-me, agarrou-se muito e conseguiu dizer entre soluços “Sabe menina, era o meu homem, e mal por mal, prefiro tê-lo agora perto de mim…”
As flores da campa do seu homem nunca secam, visita-o regularmente, enfeita-lhe a laje de mármore e conta-lhe as novidades dos filhos, das senhoras, as notícias que dão na TV…
Estórias reais de plebeus VI
A morte e o perdão espontâneo abrem também perspectivas para o reencontro com a filha exilada em França…anos a fio de separação e dor…
Ainda não me encontrei com ela desde que aqui estou, mas está presente nos pormenores de como preparou a casa para a minha chegada...
O meu quarto estava quente e a cama feita com todo o cuidado… Quando me enfiei debaixo dos vários edredons senti o calor do mimo que só se desfruta verdadeiramente na infância e comecei a escrever à espera do meu encontro com o sono, que teima em demorar..
Marias
Quase todas davam pelo nome de Maria, não sei como se distinguiam entre si...
Conheci várias criadas em casa os mês avós…Para mim foi sempre um enigma como é que as pessoas podiam esgotar a vida a trabalhar para uma família e ainda sentirem reconhecimento, dedicação e verdadeiro amor…
Sentiam-se agradecidas pelo facto de os meus avós lhes terem “matado a fome”, porque nunca poderiam esquecer aquilo que, quem nunca passou por lá, também não pode lembrar, é que a fome mata…
Recordo essas passagens e compreendo como aquela casa funcionava como um centro de acolhimento, onde as raparigas vinham, pela mão das mães, e eram entregues à vigilância e cuidados da minha avó para que ela as acabasse de criar.
Mas era também um centro de formação, onde as raparigas aprendiam a cozinhar, limpar, cozer, lavar, passar a ferro, jardinar, etc. e assim poderem ter um futuro… fazerem-se umas donas de casa...
Outras vezes, servia como um centro matrimonial porque normalmente, o novo regime alimentar permitia-lhes ganhar formas de mulher, serem notadas pelos rapazes da vila e quem sabe, casarem-se na primeira oportunidade…Os meu avós apadrinhavam o enlace e faziam o casamento…
Se não tivessem essa sorte, por ali ficariam, a menos que a minha avó as cedesse, por especial favor, para alguma casa de confiança das suas amizades…uma espécie de centro de emprego…
Origens

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Queria que isso fosse assim para sempre…
Poisamos o olhar sobre as coisas e preferimos sentir que elas permanecerão estáticas, tal qual as percepcionamos, assim para sempre…
E quando encontramos regularmente as pessoas em determinados sítios habituamo-nos a imaginá-las “localmente” bastando regressar a um lugar para as encontrarmos, como se estivessem lá para sempre…
Soube que morreu o Fernando do Café Avenida…
É estranho estar a escrever sobre isso porque não era íntima amiga dele nem sou frequentadora do café (nem deste, nem de qualquer outro)…É um café na avenida onde resido e o Fernando trabalhava lá há certamente várias décadas…recordo-me dele há tanto tempo, sempre a atender, com um humor e trato especiais…e cruzávamo-nos regularmente…e queria que isso fosse assim para sempre…
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Vinte anos ou menos
Sentia-se cansado, e tinha planeado enviar uns emails antes de jantar, mas receava que a cozinha do restaurante ao lado fechasse e depois teria que suportar, uma vez mais, o sorriso da dona a dizer "por especial favor, para o sôtore, posso arranjar umas bifanas".
Estava farto das bifanas por favor, do sorriso por favor...não iria enviar os emails, fá-lo-ia depois.
Entrou em casa, apenas para se livrar da gravata e do casaco do fato...afinal, merecia, ao fim de mais de 14 horas de trabalho...Era este o ritmo dos últimos anos...ao menos livrar-se da gravata...e trocar o casaco pelo conforto de uma camisola de lã...
Sim, doi-lhe levemente...mas não pensava nisso, ao fim de tantas relações amorosas, logo esta que começara como uma paixão arrebatadora, uma urgência de sentimentos e sentidos, uma atracção a que nenhum conseguiu resistir e dois casamentos dissolvidos por tão pouco...com filhos no meio da confusão...Juraram a si mesmos que era desta, amor para sempre, mas já se sabe que o sempre é apenas enquanto dura...
Domingo de manhã
"Tu encanto se herá irresistible"
Há muito que não lia um horoscopo e não resisti, reza assim:
Virgo
En el plano laboral, tendrás la mente despejada para hacer frente a una serie de problemas que deberás solucionar. Si consigues poner una nota de optimismo e alegria, tudo será mucho más llevadero.
En el sentimental, viverás momentos intensos e idilicos. Concédete esos placeres que te apasionan y disfrutas como nadie: cenas suculentas, paseos al entardecer, salidas nocturnas...
E remata a bold "Tu encanto se herá irresistible"
Eh lá!!!
domingo, 2 de dezembro de 2007
Vôo TP 728

São 18h30, continuo paciente, como eu muitos outros passageiros...É assim, que espero agora... Estou absorvida entre o blog e as fotos...e ouço a mesma voz estridente de sempre:
Attention please...This is the last call...
Oops, tenho que ir...é desta!
sábado, 1 de dezembro de 2007
Tempo para mim
Percorri a ilha, subi no teleférico, passeei pela Marina, observei os barcos de cruzeiro a partir, deambulei pelo centro da cidade, para constatar que é quase Natal e já brilham os enfeites natalícios, espreitei o mercado que estava fechado ao feriado e disparei a máquina fotográfica em todas as direcções...
Em termo de gastronomia tem sido inesquecível...pude apreciar o vinho branco local, provar a poncha (1/3 de mel, 1/3 de sumo de limão e 1/3 e aguardente de cana a temperatura ambiente), os fritos de milho, o pão de alho, o bolo de caco, as queijadas de requeijão, o filete de espada com banana, a espetada de carne em pau de loureiro, a mista de peixe, mariscos... e ainda mascar cana de açucar, beber batido de anona, abacaxi, maracujá...
Tentei ver o máximo, fazer o máximo no pouco tempo que me restava...e aqui estão as fotos para recordar sempre...
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Palavras procuram-se
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Não vá o diabo tecê-las



Valha-me isso
Estou em trabalho e a responsabilidade às vezes provoca-me cólicas...um horror! Normalmente não é assim...mas desta vez é...
É injusto, mas tem que ser.... As vezes o meu trabalho castiga-me...espreito o mar e queria sair pela janela a voar... mas depois penso que amanhã tenho que entrar, pelos meus próprios pés, na sala de formação...penso melhor e recuo, volto para o meu regime de clausúra...pelo menos inspirei a noite, ouvi o silêncio...Valha-me isso!!!
domingo, 25 de novembro de 2007
És o máximo...
Um dia, predisseram-lhe o futuro, mas ele, sempre céptico, nunca quis acreditar em ciências divinatóroias...
Já não destinguia bem, claro está! Seria da música que estava demasiado alta? Ou do fumo espesso?
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
terça-feira, 20 de novembro de 2007
As nossas mãos
domingo, 18 de novembro de 2007
Diálogo
-Vai haver sempre um sabor a vazio nos teus beijos e um rasgo de paisagem desértica no teu olhar
Ela desviou a face, sorriu vagamente e respondeu numa voz sumida...
-Querido, nada é definitivo...
No limiar do real

-Estás a deixar arrefecer o café-disse ele, apenas para cortar o silêncio que se instalara...
-Devias saber que gosto dele frio- respondeu-lhe ela, sem que os olhares se cruzassem, num tom de indiferença, enquanto compôs uma mecha de cabelo desalinhada sobre a testa...
Claro que ele sabia, mas a luz fria e branca de inverno cedia ao entardecer...e o sol era engolido naquela imensidão de água...Ela recordaria aquele momento sim, mas para já ainda não desconfiava de nada e iria demorar a perceber..."também o tempo precisa de tempo"-diria mais tarde.
Não há urgência, nem brisa, nem sinais de maré...os ponteiros do relógio param e tudo fica irremediavelmente imóvel...não interessa que exista ainda consciência do que se passa e dos acontecimentos que se irião precipitar..
Saudades do futuro

Também ela tinha uma série de sonhos em suspenso...e lembrava-se bem, o momento preciso em que tudo de repente mudou...e o tempo interior passou a arrastar-se no ritmo inverso da vida...como os relatos das estórias de encantar...
E o futuro? Mas que futuro? Conhecia apenas os dias que se sucediam como as contas de um rosário, como missangas de um colar...uma certas, outras irregulares mas todas seguidinhas...e de repente sentiu saudades do tempo em que conhecia o futuro...
sábado, 17 de novembro de 2007
Fica para outra vez...
Hoje estava sonolenta, levantei-me com o propósito de escrever...escrever o quê? Pois é, o que quer que fosse ainda estava muito indefinido, vago, provavelmente ainda a germinar, a aguardar o momento... e apeteceu-me ter um destes dispensadores, em que, a troco de uma simples moeda, eu pudesse fazer sair uma fiadinha de palavras, pimba ou não, para introduzir aqui no blogue...
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Fernando Pessoa, Eros e Psique...

Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida.
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, ainda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era